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"Como Eu Trato"

Uso do Anel Expansor Endocapsular

 Dr. Armando Stefano Crema

Os anéis expansores endocapsulares (AE) foram primeiramente descritos para uso humano por Legler e Witschel1, em 1993. Na ocasião utilizavam para casos de ruptura ou deiscência zonular pós trauma contuso ou cirúrgico e em casos de fragilidade zonular como pseudoexfoliação.


Fig. 1: Esquema do anel endocapsular.
Atualmente várias empresas fabricam os AE, como a Morcher, Ophtec, Corneal, e a Mediphacus. Está disponível em tamanhos variáveis, sendo o mais comum o de 12.0/10.0mm (figura 1), tamanho padrão para utilização em olhos normais; outros tamanhos existem como 14.0/12.0mm, para olhos míopes e grandes. Vários outros desenhos de AE também foram desenvolvidos, e serão discutidos a seguir.

Para o implante do AE, pode-se utilizar pinças ou injetores; apesar da facilidade e elegância do implante com injetores, existe a desvantagem do preço do injetor, e de termos que comprar um injetor para cada fabricante de AE.

Várias indicações são propostas para utilização dos AE, como sub-luxação (figura 2), fragilidade zonular, prevenção de opacificação de cápsula posterior, defeitos irianos, per-operatório de facoemulsificação + vitrectomia posterior via pars plana, realização de capsulorrexe posterior, e realização de medidas do saco capsular “in vivo” 2.


Fig. 2: Caso de Sd. Marfan, com sub-luxação superior

SUB-LUXAÇÃO

O sucesso da utilização dos AE em sub-luxação é dependente de vários fatores, como a extensão da lesão, o número de fibras zonulares remanescentes, e a dureza do núcleo. Em geral os cristalinos estão mais estáveis em síndromes, como Marfan, uma vêz que na área afetada, além da área sem zônula, sempre há fibras zonulares remanescentes e firmes. Naquelas traumáticas, em geral há ruptura completa zonular na área afetada, e fragilidade na área remanescente.

Não é regra, mas em geral somente o implante do AE centraliza sub-luxações menores de 120 graus; naquelas com mais de 120 graus (figura 3), na maioria das vêzes há a necessidade de fixação do saco capsular à esclera


 Fig. 3. Sub-luxação maior de 120º

Apesar da LIO e do AE,  não  há centralização do saco capsular.

Para a fixação, passa-se um fio de prolene 10-0 pela incisão, perfurando a cápsula posterior, passando por baixo do AE e da alça da LIO, e saindo pelo sulco ciliar na esclera; a outra agulha do mesmo fio é passada pela incisão, perfurando a aba da cápsula anterior de baixo para cima, passando sobre o AE e alça da LIO, e saindo pelo sulco ciliar na esclera. Desta forma forma-se uma alça que fixará o saco capsular à esclera, centralizando-o. Esta técnica é potencialmente perigosa, pois perfura-se a cápsula posterior, e na nossa experiência leva à opacificação da cápsula posterior na grande maioria dos casos.

O ideal nestes casos é utilizar o AE desenvolvido por Cionni3 (figura 4), que têm uma alça extra, que é angulada para cima, ficando fora do saco capsular, e permitindo a fixação à esclera sem alterar a integridade do saco capsular. Existem três desenhos deste anel: um para implante somente com pinças, aonde a alça extra fica no final do anel; um para implante com injetores, aonde a alça extra fica no começo do anel e não entra no injetor; e um com duas alças extras (implante com pinças) para sub-luxações mais extensas


Figura 4. Anel de Cionni. Fio de Prolene passando na alça de fixação

FRAGILIDADE ZONULAR

Os AE também estão indicados naqueles casos de fragilidade zonular como alta miopia, pseudoexfoliação, e pacientes com vitrectomia prévia. Os AE podem ser utilizados na presença de sub-luxação per-operatória, ou para prevenção e estabilização pré-emulsificação do núcleo, principalmente se for percebido à lâmpada de fenda a presença de facodonese ou iridodonese.

Nos casos de pseudoexfoliação a síndrome de contração capsular é mais comum, principalmente com LIOs de silicone; existem casos descritos de contração progressiva levando à desinserção zonular e luxação de todo o saco capsular. O AE nestes casos agiria como uma força contrária à da contração, diminuindo a incidência deste tipo de complicação pós-operatória.

PREVENÇÃO DE OPACIFICAÇÃO DE CÁPSULA POSTERIOR

A migração de células epiteliais é inibida se não houver um espaço entre a parte óptica da LIO e a cápsula posterior, e se houver uma dobra com descontinuidade na cápsula posterior.

Nishi e Menapace2 desenheram um anel com bordos quadrados, que fariam com que houvesse diminuição do espaço entre a LIO e cápsula posterior, e com que houvesse uma dobra de descontinuidade, como uma barreira, diminuindo a incidência de opacificação de cápsular posterior.

Em um relato2 mostrando um ano de follow up, Nishi relata uma diminuição significativa na incidência de opacificação de cápsula posterior com a utilização destes AE.

CORREÇÃO DE DEFEITOS IRIANOS

Existem também AEs especiais, que corrigem defeitos irianos congênitos ou adquiridos. Os desenhos são para correção de defeitos setoriais, como colobomas; e para defeitos totais como aniridias (figura 5).


Figura 5. Anel para aniridia. O anel fora do olho se completa  
com o já implantado, criando uma íris com pupila de 6mm.

Estes anéis devem ser implantados sempre com pinças, e são extremamentes frágeis; para não quebrá-los devemos sempre manuseá-los na porção grossa do anel

Os AEs para aniridia são duplos, e devem ser implantados de forma que a se completarem, formando segundo o fabricante uma pupila de 6mm de diâmetro. Eles são duplos para serem flexíveis e facilmente implantados, e para contrairem junto com saco capsular; se fossem inteiros eles quebrariam durante o implante ou com a contração posterior do saco capsular.

MEDIDAS DO SACO CAPSULAR “IN VIVO”

Menapace2 e outros, desenharam um novo anel para medidas do saco capsular in vivo. As medidas seriam baseadas na observação à gonioscopia do anel dentro do saco capsular, utilizando uma fenda com largura conhecida e conhecendo o diâmetro do anel fechado.

A principal contribuição destas medidas seriam para desenhos de lentes intra-oculares e para avaliação da dinâmica de contração pós-operatória do saco capsular com o tempo.

Este ano, Hans Koch foi premiado na categoria de “instruments and devices” do congresso da ASCRS em Boston, com um video aonde mostra um desenho novo de anel para estas medidas “in vivo”, indicando as contribuições que estas medidas trariam.

OUTRAS INDICAÇÕES

Outras indicações descritas2 são naqueles pacientes com indicação de cirurgia combinada de facectomia + LIO + vitrectomia posterior via pars plana, aonde o AE, esticando a cáspula posterior, melhoraria a  visibilização per-operatória do segmento posterior.

Ainda por esticar a cápsula posterior, os AEs facilitariam a realização de capsulorrexe posterior.

Os AEs são importantíssimos na cirurgia de catarata conteporânea, com múltiplas indicações, todo cirurgião de segmento anterior deve sempre tê-los à mão e estar preparado para utilizá-los. Utilizamos os AEs há três anos, com experiência em alta miopia, pseudo-exfoliação (figura 5), sub-luxações congênitas (principalmente Marfan) e adquiridas, colobomas, e aniridias


Fig. 6: UBM de pós-operatório de um caso nosso de  pseudoes- foliação. 
Observa-se a córnea, a íris, a cápsula  anterior e   posterior, e a alças do AE e da LIO no saco capsular.

Pelos resultados que obtivemos e pela segurança que eles dão à cirurgia nestes casos, consideramos os AEs uma das mais importantes inovações recentes na cirurgia de segmento anterior.


BIBLIOGRAFIA

  1. LEGLER, U.F.C. & WITSCHEL, B.M. The Capsular Tension Ring: A New Device for Complicated Cataract Surgery. Video Symposium, ASCRS meeting, . Seattle, USA, 1993
  2. MENAPACE, R. et all. The Capsular Tension Ring: Designs, Applications, and Techniques. J. Cataract Refract. Surg. 26: 898-912, 2000. CIONNI, R.J. & OSHER, R.H. Management of Profound Zonular Dialysis or Weakness With a New Endocapsular Ring Designed for Scleral Fixation. J. Cataract Refract. Surg. 24: 1299-1306, 1998

 

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