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"Como Eu Trato"

RETINOSE  PIGMENTÁRIA  E  VISÃO  SUBNORMAL  

Dra. Silvana Terezinha Figueiredo Moya

O termo Retinose Pigmentária é atribuído a um grupo de doenças da retina no qual a visão noturna e a visão periférica são perdidas progressivamente. O acometimento primário dos fotorreceptores da retina, localizados na média periferia e, portanto, representados principalmente pelos bastonetes, explica a cegueira noturna e as alterações campimétricas.  Com a progressão da doença ocorre também o envolvimento da região central, com comprometimento das funções visuais centrais (PARANHOS, 1996).

As alterações oftalmoscópicas típicas incluem palidez do disco óptico, atenuação vascular e pigmentações retinianas em "espículas", depositadas ao longo dos vasos. No entanto, antes mesmo destas evidências oftalmoscópicas, a suspeita de disfunção dos fotorreceptores pode ser confirmada pelos achados eletrorretinográficos anormais. O eletrorretinograma mostra-se, em geral, subvoltado ou não registrável, particularmente o componente "escotópico b".

A retinose pigmentária apresenta significativa prevalência mundial, acometendo 1:3.000 a 1:5.000 habitantes, dependendo da região e do país estudados. A literatura nacional revela que é responsável por 4,28 a 14,77% dos atendimentos realizados em serviços especializados de visão subnormal, predominando entre 21 e 40 anos de idade (KARA-JOSÉ et al., 1988; BUCHIGNANI & SILVA, 1991; LEAL et al., 1995; REIS et al., 1998).

AVALIAÇÃO E CONDUTA

A investigação clínica inicia-se com a pesquisa dos sintomas, idade de início, progressão, consangüinidade dos pais e casos semelhantes na família. A história deve incluir perguntas sobre alterações da acuidade visual, da visão periférica, visão noturna, visão de cores, sensibilidade à luz e redução da sensibilidade ao contraste. Doenças infecciosas como Sífilis ou viroses (rubéola, citomegalovirus, herpesvirus) e exposição a drogas que possam cursar com retinopatias pigmentárias (fenotiazinas, cloroquina, isorretinóicos) devem ser excluídas.

Na fase inicial da doença, por volta da primeira ou segunda décadas de vida, a queixa mais freqüente é a perda progressiva da visão noturna. A preservação da retina central mantém a acuidade visual, porém já podem ser identificados escotomas na média periferia, que nos estágios intermediários coalescem, formando o escotoma em anel. Geralmente a leitura e outros trabalhos manuais podem ser realizados de maneira satisfatória quando utilizada iluminação adequada. O foco de luz com lâmpada incandescente de 60W ou a iluminação natural devem ser direcionadas para o material de trabalho, evitando o ofuscamento, queixa importante na maioria dos portadores de retinose pigmentária, mesmo na ausência de catarata. A dificuldade ao passar para ambientes com iluminação diferente pode ser minimizada com o uso de lentes absortivas amarelas ou âmbar, que diminuem o ofuscamento e aumentam o contraste, sem provocar queda da acuidade, como os filtros mais escuros. A preservação da acuidade visual até 20/30 (0,7) permite o uso de lentes negativas ou do telessistema invertido, que proporcionam expansão do campo visual, diminuindo no entanto, o tamanho dos caracteres (HYVÄRINEN et al. 1981; WEISS, 1991).

Com a evolução da doença, a perda progressiva da visão periférica é identificada pela impossibilidade de andar em lugares pouco familiares, trombando em móveis ou pessoas. O campo visual central conectado ou não a ilhas periféricas de visão pode exigir treinamento para locomoção, incluindo o uso da bengala, que muitas vezes requer suporte psicológico para ser aceito. A diminuição da acuidade visual central pode ser decorrente do desenvolvimento da catarata ou da maculopatia degenerativa. A catarata subcapsular posterior é a mais freqüente, sendo indicada a cirurgia quando for a principal causa da baixa da acuidade, limitando a leitura ou  independência do paciente (FISHMAN et al., 1985). As queixas decorrentes da redução da sensibilidade ao contraste aumentam, como a dificuldade para reconhecer faces, descer escadas, colocar água em um copo de vidro ou acender o fogo. Para a leitura de perto, o paciente pode utilizar a folha de acetato amarelo, usar as lentes absortivas amarelas em ambientes externos e, nas atividades diárias, trabalhar com materiais de alto contraste.

Para níveis de acuidade visual entre 20/60 (0,3) e 20/400 (0,05) indica-se a magnificação angular, obtida com os auxílios ópticos. No nosso meio, a maneira tradicional para o cálculo da ampliação é através da regra de Kestenbaum, que considera a ampliação de uma imagem como o inverso da acuidade visual. O cálculo do valor dióptrico da adição é apenas um ponto de partida, podendo ser alterado de acordo com o desempenho do paciente durante as sessões de treinamento.

A indicação do uso mono ou binocular do auxílio óptico dependerá do valor da magnificação, do seu sistema óptico e das funções visuais. Estas devem ser realizadas mono e binocularmente, com o objetivo de indicarem o olho dominante, orientando o uso mais adequado do recurso óptico.

As lupas de mão e de apoio proporcionam boa adaptação em pacientes com ilhas de visão periféricas e campo visual tubular. As lupas de apoio, com formato cilíndrico, mostram melhores resultados do que as esféricas, ampliando a imagem no sentido vertical e poupando o campo visual horizontal, já comprometido (SPITZBERG et al., 1994). Apesar das vantagens das lupas, os óculos devem fazer parte do treinamento, uma vez que muitos pacientes apresentam melhor desempenho com os mesmos.

O circuito fechado de televisão pode ser apresentado ao paciente até mesmo nos estágios iniciais da doença caso seja detectada significativa redução da sensibilidade ao contraste. Através deste recurso eletrônico, controla-se a luminosidade, o contraste e a magnificação. Estudos comprovaram a importância da sensibilidade ao contraste nas baixas freqüências espaciais para a leitura com auxílios ópticos e com o circuito fechado de televisão (BROWN, 1981; LEAT & WOODHOUSE, 1993).

Após a seleção dos auxílios ópticos, o paciente inicia as sessões de treinamento, identificando palavras isoladas com o tamanho 2X maior do que a acuidade visual obtida com o auxílio. Foi elaborado no Serviço de Visão Subnormal do Hospital São Geraldo (HC-UFMG) material para treinamento e avaliação dos portadores de baixa visão. De acordo com a complexidade lingüística do nosso idioma, com a evolução do treinamento, são apresentadas seqüencialmente palavras, expressões, períodos e textos, quando o registro da velocidade de leitura permite a avaliação do melhor auxílio óptico adaptado. Em média, as sessões têm 1 hora de duração.

Tese de doutorado desenvolvida no Hospital São Geraldo sobre adaptação aos auxílios ópticos para perto em portadores de retinose pigmentária, revelou que a maioria dos pacientes apresentou sucesso na adaptação aos auxílios, com predomínio dos óculos. De acordo com a literatura, foi demonstrada a importância da sensibilidade ao contraste nas baixas freqüências espaciais para leitura em visão subnormal. A velocidade de leitura foi o parâmetro objetivo utilizado para a avaliação da adaptação aos auxílios, sendo verificada a sua estabilização em torno de 6 a 7 sessões, sugerindo ser este o número ideal de sessões de treinamento (MOYA, 2001).

Devido à heterogeneidade genética da RP, deve-se ter cautela ao fornecer o prognóstico ao paciente. Raramente a doença provoca perda total da visão, no entanto, a evolução depende do padrão genético de herança. É importante o encaminhamento do paciente ao geneticista para a realização do aconselhamento genético.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. BROWN, B.  Reading performance in low vision patients: relation to contrast and contrast sensitivity.  Am. J. Optom. Physiol. Opt., Baltimore, v.58, n.3, p.218-226, Mar. 1981. 

  2. BUCHIGNANI, B.P.C.; SILVA, M.R.B.M. Serviço de visão subnormal do Hospital das Clínicas de Botucatu - levantamento das causas e resultados. Rev. Bras. Oftalmol., Rio de Janeiro, v.50, n.5, p.305-310, out. 1991. 

  3. FISHMAN, G.A.; ANDERSON, R.J.; LOURENÇO, P.  Prevalence of posterior subcapsular lens opacities in patients with retinitis pigmentosa.  Br. J. Ophthalmol., London, v.69, n.4, p.263-266, Apr. 1985. 

  4. HYVÄRINEN, L.; ROVAMO, J.; LAURINEN, P. et al.  Contrast sensitivity function in evaluation of visual impairment due to retinitis pigmentosa.  Acta. Ophthalmol., Copenhagen, v.59, n.5, p.763-773, June 1981.

  5. KARA-JOSÉ, N.; CARVALHO, K.M.M.; PEREIRA, V.L. et al.  Estudo retrospectivo dos primeiros 140 casos atendidos na clínica de visão subnormal do Hospital de Clínicas da UNICAMP.  Arq. Bras. Oftalmol., São Paulo, v.51, n.2, p.65-69, 1988.

  6. LEAL, D.B.; TAVARES, S.S.; VENTURA, L.O. et al.  O atendimento a portadores de visão subnormal; um estudo retrospectivo de 317 casos.  Arq. Bras. Oftalmol., São Paulo, v.58, n.6, p.439-442, dez. 1995.

  7. LEAT, S.J.; WOODHOUSE, J.M.  Reading performance with low vision aids: relationsip with contrast sensitivity.  Ophthalmic Physiol. Opt., Guildford, v.13, n.1, p.9-15, Jan. 1993.

  8. MOYA, S.T.F. Retinose Pigmentária e visão subnormal: adaptação aos auxílios ópticos para perto e correlação com funções visuais. 2001. 225f. Tese (Doutorado em Oftalmologia) - Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

  9. PARANHOS, F.R.L.  Avaliação da função macular e da função dos cones em pacientes com retinose pigmentar por meio de potencial visual evocado por padrão reverso, potencial visual evocado focal e flicker perimetria.  1996.  103f.  Tese (Doutorado em Oftalmologia) - Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

  10. REIS, P.A.C.; CAMPOS, C.M.C.; FERNANDES, L.C.  Características da população portadora de visão subnormal do Hospital São Geraldo; um estudo retrospectivo de 435 casos.  Rev. Bras. Oftalmol., Rio de Janeiro, v.57, n.4, p.287-294, abr. 1998.

  11. SPITZBERG, L.A.; GOODRICH, G.L.; PEREZ-FRANCO, A.M.  Reading and vertical magnification with retinitis pigmentosa.  In: KOOIJMAN, A.C.; LOOIJESTIJN, P.L.; WELLING, J.A. et al. (Ed.).  Low vision: research and new developments in rehabilitation.  Amsterdam: IOS Press, 1994.  p.275-278.

  12. WEISS, N.J.  Low vision management of retinitis pigmentosa.  J. Am. Optom. Assoc., St. Louis, v.62, n.1, p.42-52, Jan. 1991.

 

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