Menu principal | Índice do manual | Índice de comissões | Índice de Sociedades | Índex

"Como Eu Trato"

RETINOPATIA DA PREMATURIDADE  

Dra. Andrea Zin

O grande avanço tecnológico na Neonatologia é responsável pela maior sobrevivência de recém nascidos (RNs) de muito baixo peso. Com essa elevação da sobrevida, observou-se igualmente uma elevação na incidência de uma doença chamada retinopatia da prematuridade (ROP), a qual pode levar à cegueira ou baixa visão (1).

A ROP é uma doença fibrovascular, vasoproliferativa, bilateral da retina periférica de recém-nascidos pré-termo. Inicialmente conhecida como fibroplasia retrolental, foi reconhecida pela primeira vez, em 1941 pelos Drs Paul Chandler e Frederick Verhoeff. Desde sua descrição por Terry, em 1942, muitos aspectos da doença tem se modificado (2).

O termo Retinopatia da Prematuridade foi inicialmente utilizado por Heath em 1951, mas só foi amplamente adotado a partir de 1984, quando a Classificação Internacional da Retinopatia da Prematuridade foi elaborada por um grupo de oftalmologistas. A doença é classificada em 5 estágios de acordo com a gravidade, três zonas de acordo com a localização e sua extensão definida em termos de horas (Fig.1). A doença “plus”, caracterizada pela tortuosidade vascular e venodilatação, indica atividade da doença. Doença limiar é definida como estágio 3 plus, 5 horas contínuas de extensão ou 8 horas intercaladas (Fig 2)(3,4).

Fig. 1 Esquema de classificaçao da ROP

Fig 2. Diagrama da retina demonstrando a presença de ROP limiar em AO. Linha fina representando ROP 1 e 2 e linha mais espessa, ROP 3

De acordo com estudos recentes, os principais fatores de risco para o desenvolvimento de ROP nos países desenvolvidos são prematuridade e baixo peso ao nascer. A maioria dos recém nascidos prematuros apresenta peso de nascimento inferior a 900 g e idade gestacional inferior a 29 semanas. Outros fatores de risco envolvidos são: flutuação nos níveis de oxigênio nas primeiras semanas de vida, ser pequeno para a idade gestacional, hemorragia intraventricular, transfusões sanguíneas e alguns fatores de risco maternos(5,6,7).

A ROP em países em desenvolvimento apresenta um comportamento completamente diverso do observado nos países desenvolvidos. A proporção de crianças cegas naqueles países é bem superior àquela observada nos países industrializados(8). O peso de nascimento e a idade gestacional dos recém-natos com ROP limiar também é diferente. Vários estudos realizados na América Latina reportam doença limiar em crianças com peso de nascimento variando entre 600-2.000 g (peso médio 1.000 g) e muitos com idade gestacional superior a 30 semanas, o que afeta claramente a definição dos critérios dos programas de triagem e tratamento(9).

Entre janeiro de 1986 e novembro de 1987, 4099 prematuros foram avaliados em um clinical trial, CRYO-ROP, envolvendo 23 centros em todos os EUA(10). Esse estudo demonstrou que a realização de crioterapia na retina avascular periférica reduziu à metade os resultados desfavoráveis em olhos que desenvolviam doença limiar (11,12,13,14,15). Após a publicação desse estudo, a aplicação de laser tem se tornado uma opção de tratamento mais aceita por apresentar um índice de regressão mais elevado, menos complicações operatórias assim como sequelas oculares a longo prazo(16,17,18,19). Cirurgia vitreoretiniana para o estágio 5 apresenta um resultado funcional e anatômico muito insatisfatório. Alguns cirurgiões reportam bons resultados no estágio 4(20,21).

Estima-se que haja no mundo cerca de 1.5 milhão de crianças cegas(22). As causas irão variar de acordo com cada região, mas a retinopatia da prematuridade tem sido uma das causas mais importantes nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, podendo ser responsável por até 38.6% dos casos em países da América Latina(8).

É difícil determinar o número atual de crianças com deficiência visual ou cegueira em decorrência da ROP no Brasil, assim como não há nenhum programa de diagnóstico ou tratamento. O que existe são iniciativas isoladas em algumas unidades públicas e privadas. No entanto, podemos estimar a partir do número de recém-nascidos prematuros com peso inferior a 1.500 g, segundo os dados do DATASUS (Tabela1).(23)

Tabela 1. Estimativa do % de ROP limiar no Brasil

População 170 milhões
Nascidos vivos 3,6 milhões

% Peso de Nascimento < 1500g

0,96
No estimado RN < 1500g 34.560
% acesso a UTI neonatal 80% (27.648)
% sobrevida 60% (16.588)
ROP 3 plus (indicação de tratamento) 5-10% (829 – 1.658)
50% ROP 3 plus: descolamento 415-830 crianças/ano

Em resumo, seriam cerca de 415-830 crianças cegas a cada ano em decorrência da retinopatia da prematuridade, uma doença passível de diagnóstico e tratamento.

Diante da disponibilidade de um tratamento eficaz para a ROP limiar, torna-se imperativo que a população em risco seja examinada em tempo hábil para que o tratamento possa ser instituído. Os critérios de diagnóstico e tratamento diferem de um país para outro. O Colégio Real de Oftalmologia do Reino Unido recomenda o exame de bebês que apresentem peso de nascimento inferior ou igual a 1.500 g e/ou idade gestacional inferior ou igual a 31 semanas, sendo o primeiro exame realizado entre a 6a e 7a semana de vida. O seguimento deve ser feito até que haja sinais definitivos de regressão ou que a vascularização retiniana tenha alcaçado a zona 3(24). Nos EUA, o critério é o exame de RNs com peso inferior ou igual a 1.500 g ou idade gestacional inferioir a 28 semanas assim como bebês com quadro clínico instável(25). Em diversos países, inclusive o Brasil, há discussão acerca da mudança desses critérios de exame(26).

BAIXA VISÃO EM DECORRÊNCIA DA ROP

A baixa visão implica no comprometimento de diversas funções do sistema visual, não apenas a acuidade. Fica muito difícil a classificação em pacientes com idade inferior a 18 meses, uma vez que eles estão em franco desenvolvimento de seu sistema visual, sendo os níveis de acuidade considerados baixos na idade adulta, normais para os bebês. Em decorrência dessa constante mudança, as respostas visuais dos bebês devem ser monitorizadas pelo menos a cada três meses durante o primeiro ano de vida. Muito do que seria considerado baixa visão, na realidade trata-se de um atraso do desenvolvimento que pode ou não vir associado a outras deficiências, em especial em crianças prematuras. A visão é a forma de comunicação e aprendizado no primeiro ano de vida. Crianças com deficiência visual grave perdem horas de aprendizado “incidental” e comunicação visual, tendo que construir uma série de conceitos com informação em blocos, com evidente defasagem em seu aprendizado (27).

A retinopatia da prematuridade pode levar ao comprometimento visual de várias formas. A regressão da doença com presença de tração retiniana e deslocamento macular, descolamento parcial ou total da retina de ambos os olhos constituem uma causa ocular para a baixa visão nas crianças prematuras.

No entanto, essas crianças não são cegas e apresentam um resíduo visual que se desenvolve ao longo dos primeiros anos. A avaliação da acuidade é importante. No entanto, muitas vezes não conseguimos utilizar testes de olhar prefrencial ou tabela de optotipos. Nesses casos, podemos avaliar o desempenho visual observando a atenção, o interesse por objetos, pela face do examinador, contato visual e respostas como o sorriso. Naqueles em que mesmo assim não obtivermos resposta, poderemos realizar a observação em ambiente escurecido, com objetos iluminados. Mesmo com respostas visuais desencorajadoras, a prescrição da correção óptica deve ser considerada. Algumas vezes, além das sequelas da retinopatia da prematuridade pode haver uma hipotonia muscular generalizada com deficiência da acomodação. Nesses casos, podemos realizar uma hipercorreção com a finalidade de estimulação para perto no caso de bebês. Quando o descolamento de retina está presente, devemos pesquisar qual o campo visual, por onde a criança percebe os estímulos visuais. Essa é uma abordagem mais difícil, porém possível.

A visão tem um importante papel organizador na comunicação e aprendizado. A informação visual é constantemente combinada com informações de outras modalidades e seu uso requer o desenvolvimento de numerosas funções neurológicas que precisam ser avaliadas quando se examina um lactente com deficiência visual. Isso é particularmente importante quando se examina um prematuro que pode muitas vezes apresentar múltiplas deficiências.

A experiência visual é o principal motivador do desenvolvimento global do lactente e a presença de uma alteração retiniana nesse período constitui uma barreira para a consolidação do aprendizado visual. Além de graves atrasos do desenvolvimento, o lactente deficiente visual pode apresentar mecanismos compensatórios não desejáveis tais como sinal óculo-digital, desvios do comportamento que devem ser trabalhados na estimulação.

A estimulação visual não é realizada pelo oftalmologista mas a orientação da família e o trabalho conjunto com os terapeutas são fundamentais. As modificações do meio ambiente, magnificação e orientação familiar são de extrema importância para que essas crianças utilizem esse canal de comunicação com o mundo. Na realidade, nesses casos realiza-se uma habilitação visual e quanto mais precoce, melhores os resultados obtidos.

Referências

      1. Kumar H, Singha U. Retinopathy of prematurity: clinical aspects. J Comm Eye Healthl 1997; 10 (22): 19-22.
      2. Pierce EA, Mukai S. Controversies in the management of retinopathy of prematutrity. International Ophthalmology Clinics 34:121-148.
      3. Committee for the Classification of Retinopathy of Prematurity. An international classification system of retinopathy of prematurity. Arch Ophthalmol 1984; 102: 1130-1134.
      4. Patz A. An international classification system of retinopathy of prematurity. II: The classification of retinal detachment. Arch Ophthalmol 1987; 105: 905-912.
      5. Fielder A. Retinopathy of Prematurity. Cap. 43 em Paediatric Ophthalmology 1997 2a edição. Editores: D Taylor. Pub. Blackwell Science.
      6. Darlow BA, Horwood LJ, Clemett. Retinopathy of prematurity: risk factors in a prospective population-based study. Paediatric and Perinatal Epidemiology 1992; 6: 62-80.
      7. Hammer ME, Mullen PW, Ferguson JG, Pai S, Cosby C, Jackson KL. Logistic analysis of risk factors in retinopathy of prematurity. Am J Ophthalmol 1986; 102(1): 1-6.Gilbert C, Rahi J, Eckstein M, O’Sullivan J, Foster A. Retinopathy of prematurity in middle-income countries. The Lancet. 1997; 350: 12-14.
      8. Gilbert C, Rahi J, Eckstein M, O’Sullivan J, Foster A. Retinopathy of prematurity in middle-income countries. The Lancet. 1997; 350: 12-14.
      9. Unpublished document. Report of workshop on Prevention of Blindness due to to ROP in children in Mexico. October 2001. Institute of Ophthalmology. London, UK.
      10. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity. Preliminary results. Arch Ophthalmol 1988; 106: 471- 479.
      11. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity. Three-month outcome. Arch Ophthalmol 1990; 108: 195-204.
      12. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity. One year outcome – structure and function. Arch Ophthalmol 1990; 108: 1408-1416.
      13. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity. 3 ½ year outcome – structure and function. Arch Ophthalmol 1993; 111: 339-344.
      14. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity. Snellen visual acuity and structural outcome at 5 ½ years after randomization. Arch Ophthalmol 1996; 114: 417-424.
      15. Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Multicenter trial of cryotherapy for retinopathy of prematurity.Ophthalmological outcomes at 10 years. Arch Ophthalmol 2001; 119(8): 1110-1118.
      16. Hunter DJ, Repka MX. Diode laser photocoagulation for threshold retinopathy of prematurity. Ophthalmology. 1993; 100: 238-244.
      17. White JE, Repka MX. Randomized comparison of diode laser photocoagulation versus cryotherapy for threshold retinopathy of prematurity: 3 year outcome. J Pediatr Ophthalmol & Strabismus. 1997; 34: 83-87.
      18. McNamara JA, Tasman W, Brown G, Federman JL. Laser photocoagulation for Stage 3+ retinopathy of prematurity. Ophthalmology. 1991; 98: 576-580.
      19. McNamara JA, Tasman W, vander JF, Brown GC. Diode laser photocoagulation for retinopathy of prematurity. Preliminary results. Arch Ophthalmol. 1992; 110: 1714-1716.
      20. Quinn GE, Dobson V, Barr CC, Davis BR, Palmer EA, Robertson J, Summers CG, Trese MT, Tung B. Visual acuity of eyes after vitrectomy for retinopathy of prematurity: follow-up at 5 ½ years. The Cryotherapy for Retinopathy of Prematurity Cooperative Group. Ophthalmology 1996; 103: 595-600.
      21. Trese MT, Droste PJ. Long term postoperative results of a consecutive series of stage 4 and 5 retinopathy of prematurity. Ophthalmology 1998; 105: 992-997.
      22. Gilbert C, Foster A . Childhood blindness in the context of Vision 2020-The right to sight. Bulletin of the World Health Organization. 2001; 79: 227-232.
      23. Zin A. The increasing problem of retinopathy of prematurity. J Comm Eye Health. 2001; 14(40): 58-59.
      24. Royal College of Ophthalmologists Joint Working Party. Retinopathy of Prematurity: guidelines for screening and treatment. Royal College of Ophthalmologists 1995.
      25. Fierson WM, Palmer EA, Biglan AW, Flynn JT, Petersen RA, Phelps DL. Screening examination of premature infants for retinopathy of prematurity. Pediatrics. 1997; 100: 273-274.
      26. Lee SK, Normand C, Mcmillan D, Ohlsson A, Vincer M, Lyons C. Evidence for changing guidelines for routine screening for retinopathy of prematurity. Arch Pediatr Adolesc Med. 2001; 155(3): 387-95.
      27. Veitzman, S. Visão subnormal – Coleção de Manuais Básicos. Ed. Cultura Médica
 

Como eu Trato

Menu principal | Índice do manual | Índice de comissões | Índice de Sociedades | Índex