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Atuação
do CREMESP na Oftalmologia
Coibir o relacionamento anti-ético
entre oftalmologistas e óticas está entre as principais preocupações do
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Uma ação
permanente neste sentido, envolvendo inclusive a ação de fiscais
visitadores, é realizada em todo o Estado de São Paulo e tem a finalidade
de impedir a desmoralização da especialidade e daqueles que a praticam em
conseqüência da adoção de práticas de marketing impróprias e inadequadas.
Além disso, o CREMESP também está desenvolvendo um trabalho de
normatização de determinados aspectos do exercício da oftalmologia,
através de uma Câmara Técnica Especializada.
Esses são alguns dos pontos levantados
nesta entrevista pelo oftalmologista Luiz Fernando Spínola Micuci,
conselheiro do CREMESP e coordenador da Comissão de Ética e Defesa
Profissional I - Ética do CBO.
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JOTA ZERO - O CREMESP
existe para proteger ou para punir o médico?
MICUCI - Nem uma coisa nem outra. Temos a intenção de sermos justos,
sem qualquer ênfase na punição, mas também sem qualquer complacência
com o erro ou com a falta de ética. Nossas decisões são todas
colegiadas e o poder de cada conselheiro individualmente é relativo.
Todos os conselheiros são médicos ativos que deixam seus afazeres
nas clínicas e consultórios para prestarem serviço ao CREMESP e
todos detém algum tipo de representatividade dentro da medicina. |
JOTA ZERO - Como funciona?
MICUCI - Assim que a denúncia chega ao CREMESP começa a ser investigada.
Pede-se a manifestação das partes e, se for o caso, documentação,
prontuário do caso etc. O processo é distribuído para um instrutor que
apresenta um relatório expositivo a uma câmara formada por dez
conselheiros que deve tomar a seguinte decisão: o caso deve ser arquivado
ou transformar-se em processo disciplinar. A decisão deve ser tomada por
unanimidade. Se não houver a unanimidade na câmara, o caso vai para
plenário, com 40 conselheiros, que delibera por maioria. Cerca de 20% das
queixas são transformadas em processos disciplinares e 80% são arquivadas.
Entretanto, mesmo quando a denúncia é arquivada, ela tem um poder didático
muito grande, pois o médico percebe que existe um órgão atuante e passa a
ser mais cuidadoso.
JOTA ZERO - A oftalmologia é motivo de
muitas denúncias?
MICUCI - Por vezes chegam queixas contra um oftalmologista, mas na
realidade é um desentendimento entre médico e paciente. Entretanto, o que
tem aumentado muito nos últimos anos é a denúncia de ligação com ótica.
Sei que atualmente cerca de 50 casos estão sendo analisados e não tenho o
controle sobre todos, já que muitos ocorrem no interior e são resolvidos,
em primeira instância, pelas delegacias regionais, enquanto que outros são
distribuídos para outros instrutores.
JOTA ZERO - Como o CREMESP atua num caso
destes?
MICUCI - Procura primeiramente informar o médico que ele está tendo um
comportamento anti-ético. Parece incrível, mas muitos oftalmologistas
contam a mesma história: foram procurados por representantes de óticas
que, através de algum desconto ou vantagem, se comprometem a encaminhar
determinado número de pacientes para o consultório. Como nada foi
assinado, o médico chega até a acreditar que não está fazendo nada de
errado. Entretanto, na outra ponta, o comerciante utiliza-se de todas as
armas do marketing, o que acaba desmoralizando a especialidade e a
medicina. Quando o médico é informado que sua atitude é anti-ética e
ilegal fica desesperado e procura acabar rapidamente com o acordo. Além de
atuarmos contra o médico e o ótico, também procuramos esclarecer, já que,
como disse, quase sempre os médicos estão bastante desinformados sobre sua
atuação e não têm qualquer controle sobre as ações do ótico.
JOTA ZERO - O CREMESP tem alguma outra
atuação na área da oftalmologia?
MICUCI - Quando iniciei minha ação como conselheiro do CREMESP institui a
Câmara Técnica de Oftalmologia, formada por professores e profissionais de
destaque, com caráter consultivo, para assessorar os conselheiros nas suas
decisões referentes à especialidade. A experiência deu certo e espalhou-se
por todo o Brasil e por várias outras especialidades. Atualmente, a Câmara
Técnica não tem mais o papel de assessorar os conselheiros em casos
polêmicos, mas de estudar a normatização de determinados aspectos da
oftalmologia. Exemplos dos resultados da atuação da Câmara Técnica de
Oftalmologia do CREMESP foram as resoluções relativas às lentes
intra-oculares e reafirmando que a adaptação de lentes de contato é um ato
médico.
JOTA ZERO - A Câmara Técnica de
Oftalmologia do CREMESP está trabalhando em que assuntos atualmente?
MICUCI - Estamos desenvolvendo duas linhas de atuação. A primeira delas
refere-se às chamadas campanhas, que ocorrem em todas as especialidades,
mas com freqüência maior na oftalmologia. Campanha é uma coisa muito bem
vista, porque é a comunidade ajudando a comunidade, normalmente onde o
governo não é efetivo. As campanhas oficiais precisam ser preservadas e
incentivadas, como por exemplo a campanha da catarata, que é muito bem
vista, não tem nada o que criticar. Mas existem distorções que podem
provocar problemas e desmoralização. É o caso do médico que se associa a
uma instituição, dirige-se a uma comunidade qualquer e cobra dez reais a
consulta, muitas vezes em convênio com uma ótica, sem qualquer seriedade.
Isto não é campanha. Existem outras que são feitas em shoppings para
angariar clientes. Estamos trabalhando para normatizar, com o propósito
principal de separar o joio do trigo e incentivar as campanhas meritórias
e honestas. Não é uma coisa muito fácil, mas estamos avançando e já
alcançamos algum consenso de que as campanhas devem ser gratuitas, abertas
a todos os profissionais interessados, devem ter objetivos claros e
protocolos públicos, mas ainda estamos trabalhando.
JOTA ZERO - E qual a segunda linha de
atuação na qual a Câmara Técnica de Oftalmologia do CREMESP está
empenhada?
MICUCI - Os aparelhos de laser e as cirurgias refrativas. Estamos na
oitava geração destes aparelhos e algumas clínicas compram máquinas de
segunda mão e manutenção falha e passam a anunciar que estão aparelhadas
com laser, o que não deixa de ser verdade. Também não é raro que estes
aparelhos sejam alojados em locais totalmente inadequados. Acreditamos que
seja hoje de haver uma normatização que atinja a instalação, manutenção e
o reaproveitamento da lâmina (quando for o caso), Existem aparelhos que
foram importantes há vinte, trinta anos e hoje estão totalmente superados,
isto sem contar que tem gente fazendo a ceratotomia radial com bisturi. É
permitido ou não? Não existe nenhuma proibição, mas é uma coisa totalmente
desatualizada e acredito que nenhum oftalmologista se submeteria a uma
ceratotomia radial. Será que em certas partes do Brasil ainda é um
procedimento válido? Ou deve ser abandonado? São algumas questões que
estamos discutindo na Câmara Técnica de Oftalmologia. Lógico que existem
muitos interesses em jogo, mas mesmo assim estamos dispostos a avançar na
normatização.
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