Uma vida dedicada (e ligada) à Oftalmologia

Nascido em maio de 1939, o atual coordenador da Clínica Oftalmológica do Hospital Getúlio Vargas e Professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí, João Orlando Ribeiro Gonçalves, é um dos mais conhecidos e ativos oftalmologistas do Brasil. 
Ex-presidente do CBO, João Orlando tem seu nome intimamente ligado à prevenção da cegueira e reabilitação visual, encaradas como atividades de saúde pública e ao pioneirismo científico. Nesta entrevista, ele fala um pouco das dificuldades que encontrou para estabelecer um pólo de excelência científica e assistencial em seu Estado, de sua história pessoal e do assunto que mais aprecia: Oftalmologia.

JOTA ZERO - Porque oftalmologia?
JOÃO ORLANDO - Não existe uma razão única. Minha mãe tem um olho só, perdeu o outro com cinco anos de idade em conseqüência do tracoma. Temos um primo que aos dois anos ficou cego de um olho. Também houve a influência de um tio que era oftalmologista no interior do Piauí: Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves, que estudou no Rio com o Velho Moura Brasil. Tudo isto influenciou nossa decisão, com destaque para o caso de minha mãe, que viajou um mês para ser operada no Rio de Janeiro e mesmo assim perdeu um olho.

João Orlando Ribeiro Gonçalves
JOTA ZERO - Como foi sua formação?
JOÃO ORLANDO - Meio complicada. Quando terminamos o primário em minha cidade natal, no interior do Piauí, Oeiras, não havia ginásio e então fomos para Floriano onde cursamos o ginásio. Quando terminamos o ginásio, não havia como continuar os estudos em Floriano e fomos para Teresina. Quando terminamos o científico, em Teresina não havia faculdade de medicina e fomos para Recife, onde me formei em 1963. No Recife também fizemos Residência em oftalmologia de dois anos com o professor Clóvis Paiva e, depois disso, fomos para Belo Horizonte, onde repetimos a residência com o professor Hilton Rocha e fizemos doutorado. Tínhamos planos para continuar em Belo Horizonte, trabalhando com o professor Hilton Rocha, mas em 1969 foi criada a Faculdade de Medicina do Piauí, que hoje é a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí e o diretor que a estava organizando insistiu para que voltássemos para o Piauí a fim de cuidar do Departamento de Oftalmologia e sua insistência deu resultados.

JOTA ZERO - Por que duas residências?
JOÃO ORLANDO - Basicamente para nos aprimorarmos em alguns tipos de cirurgia, em especial para tratar do descolamento de retina, que estava começando a ser operado no Brasil em São Paulo e em Belo Horizonte.

JOTA ZERO - E quando chegou a Teresina em 1969?
JOÃO ORLANDO - Existia a Clínica Oftalmológica do Hospital Getúlio Vargas, com dois médicos oftalmologistas Evaldo Carvalho e Mansueto Martins Magalhães (eu era o terceiro). O Hospital havia sido construído em 1940, era bem estruturado e quando chegamos em 06 de janeiro de 1969, assumimos a enfermaria de oftalmologia. Em três meses conseguimos reduzir a média de internação de 10 a 15 dias para 3,3 dias, um número que nunca mais nos saiu da cabeça. Em abril, o coordenador da clínica nos chama e diz simplesmente: “de amanhã em diante eu não venho mais aqui e você vai ser o chefe”. Protestei, falei que não aceitava, pois Mansueto Martins Magalhães era mais antigo que eu. No dia seguinte, na primeira hora da manhã, houve uma reunião com o diretor do hospital Lucídio Portela da qual participamos e já fomos apresentados como diretor do departamento, como fato consumado. Foi um peso violento, tínhamos doutorado, mas não tínhamos grande experiência profissional, nem respaldo no meio da categoria médica. Começamos a desenvolver o serviço. No ano seguinte, apresentamos o currículo ao Conselho Diretor da Universidade e fomos enquadrados como titular, o primeiro na área médica e o terceiro da universidade. Imediatamente chamamos os outros dois colegas Mansueto Martins Magalhães e Ângelo Sampaio e os convencemos a obterem o título de especialista. A clínica teve seu desenvolvimento normal e, em 1981 começamos o Curso de Especialização em Oftalmologia devidamente credenciado pelo CBO, dois anos em dedicação exclusiva e o programa mínimo aprovado pelo CBO. Nessa época já contávamos com sete médicos Mansueto Martins Magalhães, Ângelo Sampaio, Durwagner da Silveira, Willian Jackson, João Batista , Francisco Vilar, pouco depois, foi criada a Comissão Nacional de Residência Médica e o curso foi também credenciado pela CNRM. Foi a época em que o CBO começou a se estruturar melhor. A Comissão de Ensino da UFPI foi a primeira a se estruturar. Continuamos crescendo. Chegamos a ter nove professores e sete médicos especialistas que eram contratados pelo Estado. Depois sofremos os problemas da universidade brasileira: um professor se aposenta, um professor pede para sair... não se pode abrir concurso, está tudo proibido. E, de repente, o governo estadual abriu um tal de PDV, Programa de Demissão Voluntária. Então sete saíram, um morreu e ficamos com oito. Agora temos nove professores da UFPI e seis médicos preceptores, que não são professores, mas que trabalham na clínica e possuem o título de especialista. Por outro lado, assim que iniciamos o curso, montamos todos os departamentos: primeiramente o de glaucoma, depois de plástica, estrabismo e lentes de contato, uveítes, catarata, visão subnormal, neuroftalmologia, córnea e retina e vítreo, serviço de urgência. Ao lado disso, fazemos a pesquisa possível e temos dado uma ênfase muito grande à prevenção.
 


João Orlando e autoridades de saúde do Piauí
JOTA ZERO - Como é o trabalho de Prevenção da Cegueira?
João Orlando - Chamamos de Programas de Extensão e são divididos em quatro áreas. O primeiro programa que introduzimos no Piauí foi o Programa do Levantamento da Acuidade Visual do Escolar iniciado em 1971.Treinamos primeiramente as professoras, que mediam a acuidade visual dos alunos e encaminhavam para o oftalmologista. Hoje, este projeto foi encampado pelo CBO, financiado em parte pelo MEC e centrado nos alunos da primeira série do primeiro grau, o Projeto Olho no Olho. No Piauí ele existe permanentemente desde 1997 e esta atividade é a pioneiro no país.
 Convém salientar que também examinamos os professores desses alunos. O segundo projeto que desenvolvemos foi o Zona Livre de Catarata, iniciado em 1987, juntamente com o Newton Kara José em Campinas. O Projeto Zona Livre de Catarata transformou-se hoje nos mutirões de catarata que, a partir de 1999/2000, foram coordenados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia e financiado pelo Ministério da Saúde através do SUS. O terceiro ponto na prevenção da cegueira no Piauí diz respeito à Retinopatia da prematuridade. Iniciamos este projeto mais ou menos em 1989 e atualmente atendemos os prematuros que nos são encaminhados das maternidades de Teresina. É um trabalho de fôlego, principalmente no nosso meio, e nos dá uma grande satisfação porque é muito salutar e reconfortante salvarmos a visão em crianças tão pequenas. Por fim, o quarto aspecto na prevenção da cegueira diz respeito à retinopatia diabética. Este foi projeto que vinha gestando há muitos anos e, em 1999, a UNIFESP capitaneada pelo Rubens Belfort Junior, Michel Farah e Paulo Morales fizeram um projeto piloto custeado pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. O projeto foi vitorioso e em 2000 foi encampado pelo CBO na gestão Marcos Ávila, que em parceria com o MS/SUS, implantou centros de referência no tratamento de retinopatia diabética não só com laser, mas também cirurgicamente quando for necessário. Iniciamos este projeto no Piauí em abril de 2000. Este é um projeto que consideramos de maior alcance social, porque o diabético precisa de pronto atendimento para evitar a cegueira inexorável e irrecuperável. Temos que levar em conta, também, que quando atendemos o paciente diabético, adotamos este paciente para a vida inteira, pois às vezes ele tem a necessidade de vir duas, três ou até quatro vezes por ano para o tratamento. O que precisa ser ressaltado em matéria de prevenção da cegueira é que os grandes apoios têm sido o Oftalmologista Brasileiro, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, as autoridades e a comunidade. 

JOTA ZERO - Que paralelo você estabelece entre a Oftalmologia que você conheceu nos tempos de estudante e a atual?
João Orlando - A evolução foi extraordinária. Quando nos formamos, o tonômetro de aplanação era novidade, bem como as cirurgias mais racionais do glaucoma congênito, ou seja, a goniotomia e depois a trabeculotomia. Em 1975, foi desenvolvido a vitrectomia, um grande passo na cirurgia da oftalmologia. Na cirurgia da conjuntiva, por exemplo, o transplante não só de conjuntiva, como de mucosa labial, ou de membrana córeo alentoide ou membrana amniótica, tiveram uma evolução tremenda nestes anos e estão na ordem do dia, particularmente aqui no Piauí. Em 1969, juntamente com Eduardo Soares, de Belo Horizonte, começamos a utilizar a membrana amniótica em cirurgias de pterígio e queimadura. Hoje está na moda. Também começaram a aparecer às cirurgias chamadas de refrativas. A primeira delas, a ceratotomia radial, da qual fui um adversário ferrenho, porque ninguém pode dosar ou controlar uma cicatriz. Hoje, a cirurgia refrativa com laser, principalmente do excimer laser, tem suas indicações precisas e representa um avanço extraordinário. Na nossa época o único colírio que existia para controle do glaucoma era a pilocarpina. Então o paciente padecia dos problemas da pilocarpina, que eram de espasmo de acomodação e em alguns casos até tração do corpo ciliar que poderia produzir descolamento de retina. Hoje a evolução foi tamanha, não só na parte clínica como cirúrgica e nos vemos uma infinidade de colírios, de ações as mais variadas possíveis, seja diminuindo a produção do humor aquoso, seja aumentando a facilidade de escoamento pelo trabeculado ou pelas vias posteriores. Em relação à cirurgia, evoluíram desde as fistulizantes clássicas até a trabeculectomia, que é a técnica preferida. Uma curiosidade: o primeiro trabalho publicado no Brasil sobre trabeculectomia foi da Escola Piauiense, publicado na Revista Brasileira de Oftalmologia e apresentei este trabalho no congresso de Salvador em 1973, porém realizamos a primeira trabeculectomia em 1969. O capítulo da uveíte praticamente inexistia quando começamos a estudar e hoje, graças à ação de vários pioneiros, temos progressos notáveis. No estrabismo, o grande avanço foi a cirurgia reajustável. Com relação à plástica oftálmica, demos um salto gigantesco. O avanço das lentes de contato também foi impressionante. Havia um truste de controle das lentes de contato. O oftalmologista brasileiro tinha acesso limitado a esta técnica. Temos que tirar o chapéu para o grande oftalmologista brasileiro Emyr Francisco Soares, recentemente falecido, que acabou com a mística da lente de contato. Criou uma empresa que desenvolveu as lentes de contato neste País e desenvolveu uma lente intra-ocular. Hoje temos acesso não só às lentes fabricadas sob a égide de Emyr Soares, mas de outras empresas que atuam no Brasil e a mística desapareceu. Na catarata, participei de todas as eras da cirurgia. Quando iniciamos, tínhamos a extra-capsular. Depois passamos pela intra-capsular clássica com a pinça de arruga. Em seguida, passamos para a era da ventosa e logo em seguida a criofacectomia, a cirurgia extra-capsular com implante das lentes intra-oculares. A evolução foi extraordinária até chegarmos à técnica da facoemulsificação, que está sendo utilizada no mundo inteiro. A evolução na cirurgia da catarata foi extraordinária não só na técnica como na incisão que diminuiu permitindo realmente evitar as complicações maiores do pós-operatório com a recuperação melhor do paciente. Enfim, o progresso científico destes anos salta aos olhos. Antigamente, nos congressos brasileiros tínhamos dificuldade em escolher quem falar porque eram poucos os oftalmologistas. Hoje nos temos dificuldade em selecionar por que a massa de trabalhos de qualidade que aparece em cada congresso é enorme. Neste ponto, é preciso fazer uma menção muito especial ao CBO, a espinha dorsal da Oftalmologia Brasileira, que tem sido o responsável pela melhoria do ensino e da prática da especialidade.
 

JOTA ZERO - Como foi sua experiência como presidente do CBO?
João Orlando - Nascemos para a oftalmologia e vivemos a oftalmologia falando sempre em CBO, a espinha dorsal da Oftalmologia Brasileira. Costumamos dizer que subi nos ombros dos mais antigos, dos mais experientes, para enxergar um pouco mais longe. Isto é o que procuramos fazer quando presidente do CBO: incentivar todas as áreas de associativismo, as áreas de defesa de classe, a área de prevenção da cegueira, a área de extensão, a área puramente científica e a área de ensino. Mas, um dos grandes marcos da vida da entidade foi a compra da sede, que consideramos nossa maior obra como presidente do CBO.

JOTA ZERO - Quais as perspectivas da Oftalmologia Brasileira e da Ciência Oftalmológica?
João Orlando - O que posso dizer é que os avanços têm sido extraordinários e animadores. Esperamos que dentro de algum tempo, a Oftalmologia, não só brasileira, como mundial, possa desenvolver um tratamento cirúrgico ou bioquímico da catarata, resolver o problema da presbiopia, proceder a uma ação para entender realmente a etiologia do glaucoma e tratá-lo melhor, como também tratar a maioria dos casos de cegueira por todas as doenças que possam acontecer.


Primeira turma do Curso de Especialização em Oftalmologia 
com seu paraninfo, o professor 
Hilton Rocha


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