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JOTA ZERO: Um pouco da sua história.
MOREIRA: Recebi o nome de Carlos porque era o nome do meu pai e Augusto porque é um nome que a família põe em seus membros há várias gerações e próprio da família Moreira. Nasci em Curitiba em 13 de setembro de 1931. Meu bisavô foi o primeiro Moreira a aportar no Brasil, fugido de Portugal por questões políticas, o que no final das contas não foi mau negócio, já que aqui no Brasil ele casou-se com a filha de um rico fazendeiro. Todos os filhos desse primeiro Moreira destacaram-se nos estudos e meu avô, Fernando Augusto Moreira, veio para Curitiba para ser chefe de oficina de um jornal e por que sua esposa, minha avó, estava tuburculosa e precisava de clima mais saudável que o do Rio de Janeiro. Aproveitou a ocasião e acabou criando o seu próprio jornal, “A República” que, como o próprio nome diz, dedicava-se a fazer o proselitismo em favor dos ideais republicanos durante o reinado de Pedro II. Curitiba era então uma aldeia e ele conseguiu destacar-se nos meios culturais, fez seu jornal e depois fundou um colégio. No início do século XX, Fernando queria ampliar seu colégio e fazer um curso semelhante ao que mais tarde ficou conhecido como madureza. Viajou para o Rio de Janeiro para pedir autorização, quando ficou sabendo que não precisava de autorização ou de licença para abrir cursos e que podia até abrir uma universidade.
Voltou para Curitiba simplesmente fanatizado com a idéia de criar uma universidade neste fim de mundo e tanto fez que empolgou as elites locais e, em 1912, foi criada a primeira universidade do Brasil, aqui em Curitiba, que contava então com 40 mil habitantes.

A família Moreira. |
Era uma universidade meio mambembe, é bom que se diga, mas sua criação e manutenção nos primeiros tempos é uma das páginas mais comoventes da história do Paraná. Um grupo de abnegados dedicou-se de corpo e alma a este ideal, chegando a colocar seus bens particulares como aval para a obtenção de recursos para a instituição. Todos os filhos de Fernando Moreira que sobreviveram foram professores universitários. Meu pai, Carlos Estrela Moreira, o mais velho, foi professor catedrático de anatomia por 40 anos na Universidade Federal e exercia a oftalmologia e otorrinolaringologia em seu consultório. Guardo até hoje sua caixa de lentes de provas. Sou o último dos seus cinco filhos... |
JOTA ZERO: Todos médicos oftalmologistas?
MOREIRA: Não. Todos são professores universitários. O mais velho, Milton, fez neurologia. Laís dedicou-se à Saúde Pública. Homero é engenheiro, o único que desgarrou da área da saúde, foi diretor de xisto da Petrobrás e professor da PUC. Fernando foi otorrinolaringologista no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro e, por fim, eu, Carlos Augusto.
JOTA ZERO: Por que oftalmologia?
MOREIRA: Meu pai exercia oftalmologia e durante o curso trabalhei com ele, aprendi a ver fundo de olho, auxiliei em algumas cirurgias. Para falar a verdade, queria ser era clínico e, dentro da clínica trabalhar com endocrinologia. Era o que mais gostava de estudar. Na hora de escolher a especialidade, meu pai ponderou que estava para se aposentar e na oftalmologia ou na otorrinolaringologia eu teria melhores condições de começar a carreira. Como sempre tive uma noção prática da vida também, decidi ser oftalmologista.
JOTA ZERO: Escolhida a especialidade, como foram os estudos?
MOREIRA: Formei-me em 1955 e ganhei um prêmio da Universidade por distinção nos estudos. O prêmio era uma residência numa universidade argentina e, ao seu término, a garantia de uma vaga como auxiliar de ensino na cadeira escolhida. Passei uns meses no Hospital do Servidor Público do Rio de Janeiro e em 1956/57 fiz residência na Argentina. Fiquei bem entre os argentinos e fiz grandes amizades. Aconteceu até uma coisa engraçada. No primeiro ano todos resolveram sair de férias no mesmo período e o chefe do serviço, o Dr. Bertoldo, deu ordens expressas: “Olha Moreira, você vai ficar sozinho e não me faça cirurgia. Marque para quando voltarmos”. Nos primeiros dias, até admiti aquilo, mas logo, incentivado por uma enfermeira, comecei a operar catarata e pterígio. Quando o pessoal voltou de férias tiveram que aceitar o fato consumado e a partir de então passei a operar como qualquer um do serviço. Quando voltei para Curitiba, tive a grata satisfação de ter chefes que sempre me abriram caminhos. Fiz concurso de doutorado, fiz o concurso de livre docência, depois fiz uma coisa que provavelmente é inexistente no mundo. Fiz concurso para professor titular na Universidade Federal e abdiquei em favor de meu filho, Júnior, que também foi aprovado com louvor e que tinha todas as condições de exercer este cargo.
JOTA ZERO: E como foi a vida no consultório?
MOREIRA: Assim que voltei da Argentina passei a trabalhar junto com meu pai, no centro de Curitiba. No início atendia em alguns dias e ele em outros, com o passar do tempo fizemos uma divisão de trabalho na qual eu ficava com a maior parte dos clientes de oftalmologia e ele com a maior parte dos que precisavam de um otorrinolaringologista. Em certa ocasião, ele teve um problema renal e foi fazer exames no Rio e teve um choque anafilático e não voltou mais a clinicar. No início atendi aos pacientes dele, mas pouco a pouco fui abandonando a otorrinolaringologia e me concentrando na oftalmologia.
JOTA ZERO: E como surgiu a Saly?
MOREIRA: Fundamental na minha vida. Que me perdoem os outros, mas até hoje a Saly é uma mulher muito atraente e na ocasião em que a conheci era uma princesinha. Comecei a namorá-la com 18 anos (ela tinha 16) e foi uma paixãozinha encardida. Ela era muito disputada e requisitada e tive passagens até quixotescas. Tínhamos tudo a ver e fomos nos aproximando. Ela queria ser médica e passou em terceiro lugar no vestibular. Fez um curso brilhante. Neste meio tempo noivamos, quando incentivei a Saly a seguir a oftalmologia.

A esposa, Saly Moreira. |
Ela queria fazer otorrinolaringologia e meu argumento foi: “que bobagem, Saly, enfrentar uma cirurgia que eventualmente pode até matar alguém. Venha fazer uma especialidade que no máximo cega a pessoa.” Deu certo. Quando voltei da Argentina, casamos, em 20 de julho de 1957. Em março de 1959 nasceu o Júnior. Três anos depois, em 1962, nasceu o Hamilton e oito anos depois, a temporã, Luciane. Por um caminho ou por outro, todos chegaram na Oftalmologia. A Saly foi uma das primeiras especialistas em lentes de contato do Brasil e ainda hoje é uma das pessoas que mais tem conhecimento nesta área e nossa felicidade conjugal atingiu um nível que nos permite ter discussões de todo tipo porque sabemos que elas não vão ter conseqüência mais séria. |
JOTA ZERO: Como chegou ao CBO?
MOREIRA: Sempre me dediquei à área universitária e Curitiba era pobre de atividades acadêmicas. Como nunca fui tímido, comecei a frequentar eventos oftalmológicos no Rio e em São Paulo. Montei as primeiras reuniões de oftalmologia em, pouco a pouco, fui colocando Curitiba no mapa dos eventos e da Oftalmologia Brasileira. Eu e Saly começamos a fazer amizades em eventos e cursos, entre os quais Renato de Toledo, Rubens Belfort Junior e Newton Kara José. Fui convidado pelo professor Renato a integrar uma das comissões do CBO, embora durante a eleição eu fosse integrante da chapa que se opôs a ele. Sempre gostei de política e, no fim da gestão de Werter
Duque Estrada, fui candidato e presidente do CBO. Estava com a carreira montada e não tive problemas maiores. Minha candidatura foi decidida no Aeroporto de Congonhas, numa reunião em que Newton Kara José, Rubens Junior e eu estávamos esperando um vôo qualquer e discutindo os problemas da Oftalmologia Brasileira. Numa hora percebemos que havia uma grande identidade entre nós e sugeri que montássemos uma chapa para concorrer à diretoria do CBO. Os dois me olharam, olharam entre si e decretaram: “vai você que é o mais velho”. |