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O Homenageado especial do XXXII Congresso Brasileiro de Oftalmologia
Durante o XXXII Congresso Brasileiro de Oftalmologia será feita uma homenagem especial ao professor Daudete Gonçalves Pastor, um dos maiores nomes da Oftalmologia da Bahia e patrono de várias gerações de médicos que se dedicaram à saúde ocular da população naquele Estado.
Nasceu em dezembro de 1928, na Cidade de Conceição de Coité, antiga passagem para as minas de ouro de Jacobina nos fins do século XVIII, encravada no semi-árido baiano, a 210 quilômetros de Salvador, com um dos mais baixos regimes pluviométricos do Brasil. Casado, pai de 5 filhos, uma das quais oftalmologista, Daudete Gonçalves é filho de Zeferino Gonçalves Pastor e de Maria da Silva Pastor. Passou grande parte de sua infância e juventude na cidade natal, onde não havia médico, as ruas não tinham calçamento e o único meio de transporte para capital era a estrada de ferro Leste Brasileiro, nas famosas Maria Fumaça, com intermináveis atrasos. |

O professor Daudete durante recente inauguração de sala de atendimento oftalmológico batizada em sua homenagem. |
Nesse contexto social completou o curso primário no início dos anos 40 na Escola Antônio Bahia, como um dos melhores alunos que já passaram naquela tradicional casa de ensino da cidade. De família tradicional e bem quista por todas as correntes políticas, continuou os estudos incentivado pelos antigos professores e por um cunhado, Manoel Carneiro Rios. A medicina foi escolhida em função da preocupação com os problemas sociais da região, herdada da mãe que se dedicava à filantropia.
Durante a juventude, seu pai contraiu febre tifóide e não conseguiu assistência médica adequada. |

Com esposa, filhos e netos. |
Na entrevista abaixo, o professor Daudete Gonçalves Pastor fala algo de sua vida e das razoes porque seus alunos e colegas da Bahia resolveram lhe fazer uma homenagem especial em setembro, durante o mais importante evento oftalmológico do ano.
O professor Daudete durante recente inauguração de sala de atendimento oftalmológico batizada em sua homenagem. |

Em sua juventude, recebendo homenagem de sua cidade natal. |

Inauguração do ambulatório Central de Oftalmologia da Presidência Social em Salvador. |

Confraternizando com os alunos num dos muitos cursos de oftalmologia que proferiu. |
JOTA ZERO: Porque oftalmologia e dentro da oftalmologia qual a subespecialidade que mais lhe atraiu?
GONÇALVES PASTOR: Quando decidi estudar Medicina já estava explícito que me dedicaria à Oftalmologia. A influência de minha mãe foi muito grande para o desenvolvimento de minha preocupação social. Uma grande parte do contingente de pedintes de minha cidade natal era composta por cegos, vitimados por enfermidades perfeitamente evitáveis e curáveis (conjuntivite nos recém-nascidos e da primeira infância, tracoma, acidentes oculares, catarata etc). Estes fatos forjaram o caminho para a medicina e para a oftalmologia. Em 1956, tornei-me o primeiro médico nascido em Conceição de Coité. A consolidação da vocação pela oftalmologia foi fortemente influenciada por Fernando Príncipe de Oliveira, Diretor do Hospital Santa Luzia (irmão do deputado Hermorgenes Príncipe de Oliveira, amigo da minha família), que contribuiu de maneira especial para a minha formação. Minha grande dedicação, quase exclusiva nos primeiros tempos, era o glaucoma, uma das principais causas da cegueira na época.
JOTA ZERO: Como foi sua carreira universitária?
GONÇALVES PASTOR: Terminei a graduação em 1956 na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia e, nos dois anos seguintes, fiz a especialização em oftalmologia na Fundação Santa Luzia, onde funcionava na época a Cátedra de Oftalmologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, sob a responsabilidade dos professores Colombo Spínola e Fernando Príncipe de Oliveira. Fui professor assistente-instrutor de oftalmologia na Cátedra do Professor Colombo Spínola na Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública entre 1962 a 1973. A partir de 1973 dediquei-me prioritariamente ao ensino de médicos que almejavam melhorar seus conhecimentos em oftalmologia: neurologistas, cardiologistas, médicos em geral (Serviços de Emergência). Na verdade, as atividades universitárias tinham o objetivo de ampliar o número de oftalmologistas e das instalações e aparelhagens oftalmológicas na Bahia. Em trabalho publicado na Revista Brasileira de Oftalmologia sobre as “Causas da Cegueira na Bahia”, constatei que as campanhas de combate à cegueira, promovidas pela Fundação Santa Luzia e pela Clínica Oftalmológica da Faculdade de Medicina no combate ao tracoma, conjuntivite dos recém-nascidos e da primeira infância, resultavam em grande redução da cegueira. Contudo a estrutura deficiente do atendimento oftalmológico, principalmente aos pobres, alimentava as fontes causadoras da cegueira. Na época tínhamos cerca de duas dezenas de oftalmologistas na região, mais voltados à clínica privada, e poucos nos serviços públicos, ligados principalmente à incipiente Previdência Social, e a demora para se obter uma consulta oftalmológica era de até 6 meses. Por isto, minhas atividades universitárias ou profissionais foram exercidas com o propósito de obter dos órgãos da Previdência a construção de uma estrutura condizente e humana para população previdenciária de baixa renda.
JOTA ZERO: Quais os resultados desta luta?
GONÇALVES PASTOR: Na Fundação Santa Luzia trabalhamos no cotidiano atendimento clínico-cirúrgico, auxiliando o Professor Colombo Spínola na Cadeira de Oftalmologia da Escola Bahiana e promovendo memoráveis campanhas contra a cegueira, concentradas nos recém-nascidos e na primeira infância. Na Previdência Social, na posição de Assessor de Oftalmologia para o Estado da Bahia e Diretor do Ambulatório Central de Oftalmologia da Previdência – PAM Nazaré, iniciamos um trabalho articulado de convencimento das autoridades previdenciárias e conseguimos a instalação do Ambulatório Central de Oftalmologia da Previdência, junto ao Hospital Santa Luzia, com aparelhagem atualizada e em quantidade condizente com o nosso projeto (Serviço de Urgência Oftalmológica, Glaucoma, Córnea, Retina, Estrabismo, etc). Adotamos um modelo que a Previdência Social mantinha no Hospital Graffée Guinle (no Rio de Janeiro), onde havíamos feito um estágio com o Professor Joviano Rezende. Também com o Professor Nassim Calixto (Serviço de Glaucoma) no Serviço do Professor Hilton Rocha na Universidade de Minas Gerais. Ao mesmo tempo reaparelhamos salas de oftalmologia dos ambulatórios da Previdência na Capital e Interior do Estado. Trabalho contínuo antes e depois da inauguração destes serviços da Previdência, incentivando recém-formados a especializar-se em oftalmologia. Também reservamos grande parte de nossas atividades na linha de preparação de pessoal especializado (oftalmologistas) e das atividades afins. Já nos fins dos anos 70 tínhamos cerca de setenta médicos trabalhando para a Previdência com atendimento superior a 5 mil pessoas por mês, o que para mim era a constatação de que havia cumprido o dever profissional e atendido as razões que tinham me levado a ser médico oftalmologista.
JOTA ZERO: Como recebeu a notícia desta homenagem especial que está sendo preparada para o Congresso de setembro?
GONÇALVES PASTOR: Durante a trajetória de minha vida e, predominantemente, nos últimos anos, tive a felicidade de ser alvo de várias homenagens como oftalmologista, das quais as que mais me tocaram foram as feitas por congressos, cursos, por várias turmas da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, inauguração de placas em salas de atendimento oftalmológico e salas de cirurgia com meu nome e placas de reconhecimento pelos ensinamentos recebidos no curso de sua vida acadêmica. Esta homenagem do Congresso Brasileiro de Oftalmologia, a ser realizado em setembro, vem completar uma coroa de homenagens recebidas durante a minha vida de médico, que por sua importância, traz imensa satisfação a qual não tenho palavras para agradecer e sim dizer: que Deus abençoe a bondade de todos para comigo, especialmente dos organizadores deste Congresso. Não posso deixar de dividir esta homenagem aos meus pacientes que, durante toda a minha vida na especialidade, ocuparam meu coração e fizeram meu espírito.
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