Fundação Dorina Nowill:
57 anos de dedicação ao deficiente visual

"Sabe onde o cego começa a ficar mal ajustado, ou não? No consultório do oftalmologista. A atitude do médico vai ser muito importante para que o cego não fique mal ajustado e sem forças para continuar viver. Impedir que isto aconteça é uma grande tarefa do oftalmologista, talvez a sua grande responsabilidade diante do deficiente visual que ele acompanhou, tratou e não conseguiu curar completamente".

São as palavras de Dorina Gouvêa Nowill, presidente da Fundação que atualmente leva o seu nome. Cega desde os 17 anos, Dorina Nowill tem uma saga pessoal de determinação e realização que faz parte da história da assistência ao deficiente visual em nosso País. Hoje a Fundação Dorina Nowill Para Cegos, antiga Fundação para o Livro do Cego no Brasil, realiza um trabalho de referência internacional na inclusão social dos deficientes visuais através de programas de avaliação e diagnóstico, educação especial, reabilitação e colocação profissional. Realiza, em média, 1.400 atendimentos por mês, mobilizando uma equipe de 72 profissionais e mais de 300 voluntários. A Fundação Para o Livro do Cego no Brasil, foi instituída em 11 de março de 1946 e inicialmente dedicou suas atividades para a produção manual de livros em Braille realizada por um Grupo de Voluntários. Com o sucesso das atividades, possibilitadas pelo apoio destes voluntários, dos Governos Municipal e Estadual e por doações de equipamentos, foi possível instalar a Imprensa Braille para produção industrializada de livros em Braille.


Dorina Nowill (centro) com o médico oftalmologista da Fundação, Alexandre Costa Lima Azevedo, e com a ortoptista Eliana Cunha.
A história de Dorina Nowill começa a se delinear quando recebe um convite para cursar a escola Normal Caetano de Campos, tradicional instituição de formação de professores da capital paulista. O processo de sua entrada no Caetano de Campos foi facilitado por uma série de conhecimentos sociais e de condições econômicas e culturais (ela, inclusive, tinha aprendido ler pelo método Braille alguns meses antes no Instituto Padre Chico), o que não reduz em nada o pioneirismo do ato: era a primeira aluna e única aluna cega numa escola em que alunos e professores estavam preparados para se comunicarem, basicamente, através da visão. Deve-se levar em conta o fato de que o mundo estava no final da segunda guerra, com todas as dificuldades materiais e sociais provocadas pela situação e com todas as esperanças e sentimentos de renovação próprios daquele momento histórico.

No Caetano de Campos, Dorina sentiu a enorme carência de obras em Braille no Brasil. Seus estudos foram possibilitados pela leitura oral de colegas, amigos, familiares e até de uma empregada que ela havia alfabetizado meses antes. Do Caetano de Campos, Dorina partiu para a Universidade de Colúmbia, onde fez um curso de especialização em educação de cegos graças a uma bolsa de estudos concedida pelo governo norte-americano.

De volta ao Brasil, retomou contatos com sua equipe do Caetano de Campos e, com métodos quixotescos, enfrentando dificuldades de toda ordem, começaram a elaborar livros em Braille por métodos hoje considerados primitivos, utilizando a sede da Cruz Vermelha Brasileira em São Paulo. A extensa rede de contatos sociais de Dorina Nowill e de suas colegas possibilitou a consolidação e o constante crescimento da fundação, que a partir de 1991 passou a ter o seu nome.

A Fundação Dorina Nowill Para Cegos produziu durante sua existência mais de mil títulos e 100 mil volumes em Braille e atendeu mais de 10.000 pessoas nos diferentes serviços de atendimentos. Trabalha com deficientes visuais de todas as idades, inclusive recém-nascidos. Publica livros em Braille e livros falados, beneficiando mais de 9000 cegos em todo o Brasil e oferece programas de treinamento e colocação no mercado de trabalho.

O atendimento é realizado por equipes multidisciplinares, compostas por profissionais das áreas de Oftalmologia, Ortóptica, Neuropediatria, Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, Fisioterapia, terapia Ocupacional e Pedagogia de orientação e mobilidade. Os programas de tratamento são individualizados e incluem orientação familiar.

A Fundação Dorina Nowill também mantém Serviço de Educação especial formado por equipe multidisciplinar composta por pedagogos, psicólogos e fisioterapeutas que desenvolve programas específicos de atendimento procurando enfocar não só o deficiente visual, como orientar a escola sobre as possibilidades e necessidades educativas especiais do educando que é deficiente. Também tem serviço de orientação psicológica para o deficiente visual e para sua família.

O Serviço de Reabilitação da Fundação conta com várias áreas de atendimento que inclui: orientação social, atendimento psicológico, atendimento fisioterapêutico, treinamento para atividades cotidianas, comunicação, orientação e mobilidade, orientação, colocação e acompanhamento profissional.

Para a realização do trabalho, a Fundação Dorina Nowill Para Cegos estabeleceu uma série de parcerias com empresas e órgãos governamentais, entre os quais o Bradesco, Itaú, Banco Safra, Banco Alfa, Companhia Brasileira de Alumínio e Editora Melhoramentos (iniciativa privada), secretarias municipais e estaduais de cultura, Conselho Municipal de Auxílios e Subvenções e a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência do Ministério da Justiça no âmbito governamental.

Ao comemorar os 57 anos de existência, a Fundação Dorina Nowill Para Cegos é uma das mais sólidas e competentes entidades de atendimento, educação e reabilitação do deficiente visual de nosso País. Sua fundadora, figura extremamente cativante, foi homenageada no 15º Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira e Reabilitação Visual, realizado em setembro do ano passado em Curitiba. Casada com Edward Hubert Alexander Nowill, mãe de 5 filhos e avó de 12 netos, é autora do livro “... e eu venci assim mesmo”, autobiografia que relata seus 50 anos de trabalho, publicado em 1996. Concedeu um depoimento ao JORNAL OFTALMOLÓGICO JOTA ZERO, do qual destacamos os pontos mais importantes.

Moacyr Álvaro
De uma certa forma, foi através de Moacyr Alvaro que recebi a bolsa de estudos nos EUA para me especializar em educação de cegos. Ele vinha se envolvendo na prevenção da cegueira e tinha duas assistentes sociais, a Adelina e a Conchita Carvalho, que foram para os Estados Unidos durante a guerra para estudarem prevenção da cegueira mandadas pelo professor Moacyr e lá deram o meu nome às autoridades americanas e aos representantes de entidades que lidavam com cegos e deficientes visuais, o que me abriu muitos caminhos...

Início do trabalho da fundação
“...Em 1946, começamos a organizar nossa biblioteca circulante, transcrevendo os livros por um processo muito rudimentar inventado por Regina Pirajá, supervisora da Caetano de Campos, que na época era orientadora, esposa do grande médico e cientista Manuel Pirajá. Conheci a Regina através da aula de canto do Colégio São Luis e ela inventou um processo que usava papelão e mata borrão e que permitia à pessoa vidente transcrever, da forma mais primitiva, alguns livros para o Braille. Foi assim que esta fundação começou e que começamos a captar voluntários...”

Caetano de Campos I
“... quando entrei para a Caetano ninguém sabia o que fazer comigo e tive que ajudar porque era a única que sabia Braille. Na época, consegui uma máquina Braille, presente do embaixador José Carlos Macedo Soares que havia recebido como curiosidade. Era antiga, antiquada, maravilhosa e foi minha grande companheira...”

Caetano de Campos II
“... Fiz o curso normal e me apaixonei pela educação. Dei aula para alunos videntes do terceiro ano primário. Conseguimos formar um grupo de oito normalistas que foi o embrião da fundação. Começamos todo este trabalho numa salinha na sede da Cruz Vermelha Brasileira...”


No 15º Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira e Reabilitação Visual, realizado em setembro de 2002, em Curitiba, Dorina Nowill foi homenageada pelo CBO

Necessidade dos livros
“... O início do meu trabalho foi para que os brasileiros cegos tivessem livros. Porque eu fiz todo o curso da Caetano com a minha máquina, transcrevendo os pontos sem ter um livro sobre educação para poder ler. As pessoas liam para mim... até uma empregada que eu tinha alfabetizado na minha casa que lia a noite para eu poder transcrever quando minha mãe cansava...”

Profissionalismo
“... A base profissional da Fundação é o sustentáculo desta obra. Sempre trabalhei para a formação de profissionais. Sem profissionalismo não se faz uma obra social digna. O melhor voluntariado de nossas obras são as diretorias, sempre profissionais de suas respectivas áreas...”

Inclusão X Integração
“... Hoje se fala “inclusão”, que nós chamávamos de integração. Tenho uma opinião pessoal: nunca fui excluída apesar de ser cega, porque nunca me senti excluída. Ninguém me exclue se não me sentir excluída. Lutei para obter o que queria, mas não porque me sentisse excluída, mas lutei para que ser reintegrada no meu direito. Nasci incluída. Todo Ser Humano nasce incluído, todos somos iguais e são as circunstâncias que, por diversas razões como raça, religião, deficiência, nos afastam daquilo que somos. Por isto sempre repito, quando me perguntam como consegui, que o Caetano de Campo não era uma escola para videntes, era uma escola para brasileiros e eu como cidadão brasileira exerci meu direito de freqüentá-lo...”

Papel do oftalmologista I
“... O que o oftalmologista deve fazer? A primeira coisa, lógico é participar de alguma obra que envolva o deficiente visual. Outra coisa importante é dizer, o mais cedo possível, para um pai que seu filho não tem jeito e vai ficar cego. Sei que é a coisa mais terrível. Pessoas como eu representam o fracasso da Oftalmologia. O médico precisa ter a grande coragem de dizer a um pai que aquela criança é ou vai ficar cega e que vai precisar ser encaminhada para uma instituição especializada. A mesma coisa em relação aos portadores de visão subnormal. Depois do encaminhamento, o oftalmologista nunca pode se sentir dispensado...”

Papel do oftalmologista II
“... Uma vez discuti este assunto com o Moacyr Alvaro e ele falou “o que você quer que eu faça? que diga para um cego que ele não vai ver. Aprendi que a esperança a gente não mata” e respondi imediatamente: “ você não vai tirar a esperança dele. Tenho a esperança até morrer, ela morre depois de mim. O que o senhor não pode dar é ilusão de que ele vai ver, porque isto vai atrapalhar toda a sua vida”. O oftalmologista precisa entender que aquele cego não é apenas uma frustração, mas é um Ser Humano que pode muito, que tem que ser orientado e educado, inclusive para utilizar o pouco de visão que porventura ainda tenha...”


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