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Pelo resgate da essência da
Medicina
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Livre Escolha.
Estas duas palavras representam o princípio fundamental que resgata a
essência da medicina que hoje, no Brasil e outros países como EUA, está
completamente desvirtuada pela atuação de um sistema voltado para a
intermediação mercantilista com objetivo de lucro que avilta a profissão
médica e despoja o paciente de seu direito fundamental de escolher o
profissional, o serviço ou o hospital.
Quem busca um médico,
busca, no momento de fragilidade, aquele profissional ou serviço sobre o
qual já tenha referências de competência, dedicação, respeito e
humanidade. Ao limitar esta busca por meio de uma lista de nomes agrupados
por ordem alfabética e área geográfica (caderno do convênio), o sistema de
intermediação mutila a relação médico-paciente, considerada por todos como
fundamental para o desempenho do ato de curar.
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Evidentemente, quando
o paciente entra no hospital, a situação muda e ele passa a ser tratado
por especialistas de várias áreas que não tem condições de escolher, porém
sabe que aquele hospital ou serviço de sua confiança é competente.
Porém, nas outras
situações onde o direito de livre escolha de seu médico deveria ser a
regra absoluta, interesses mercantilistas, técnicas de marketing e de
controle de custos estabelecem mecanismos cada vez mais cruéis, como
relata o exemplo citado pelo vice-presidente do CBO, Elisabeto Ribeiro
Gonçalves, no editorial publicado nesta mesma página.
Deplorar a situação
não basta. Vemos com tristeza que muitas vezes os próprios médicos tomam
atitudes que reforçam este sistema de intermediação mercantilista da
assistência à saúde: são inúmeros os exemplos que nos chegam de
concorrência desleal e predatória, de submissão a situações que trazem
vantagens imediatistas para alguns e prejuízos permanentes para a
coletividade, de maquinações voltadas para o estabelecimento de reservas
de mercado e para afastar outros médicos, principalmente os recém egressos
das faculdades e residências, dos pacientes.
Precisamos transformar
nossa indignação em ação política e atitudes individuais e coletivas
positivas. Da recusa em participar de esquemas que possam fortalecer o
sistema de intermediação mercantilista à discussão e criação de sistemas
éticos de financiamento da saúde que garantam a livre escolha, envolvendo
governos e os vários segmentos sociais. Existe uma longa distância que
passa pelo fortalecimento das entidades representativas da classe médica e
pela restauração da Ética como bússola para as relações com os pacientes,
empresas, colegas e com o restante da sociedade.
Não é um caminho
curto, nem reto, muito menos fácil de ser trilhado. Mas, fora dele o que
existe é a deterioração cada vez maior do quadro atual com o
estabelecimento de uma situação onde todos, médicos e pacientes, seremos
sacrificados em nome do lucro de um punhado de financistas. Uma
instituição só e isolada, é frágil e inoperante, se a classe médica com
suas instituições representativas maiores e poderosas e o próprio poder
público não respeitarem esse ideal ético e digno. Não vamos somente
sonhar. Vamos continuar reclamando da sociedade o direito da livre escolha
pelo paciente almejado há várias décadas. A resistência é forte e o
financiamento difícil, porém o dia da vitória virá. A dedicação em cima de
um objetivo sempre é vitoriosa.
Suel Abujamra
Presidente
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A Solidariedade
necessária
Uma parte de
mim pesa, pondera: outra parte delira; uma parte de
mim almoça e janta: outra parte se espanta
(Traduzir-se, Ferreira Gullar).
Recentemente, aqui em Belo Horizonte, o ilustre e
estimado colega Nicomedes Ferreira Filho, recebeu
carta descredenciando-o junto a um determinado
convênio. Assim, de repente, sem que lhe fossem
apresentados motivos e através de uma
correspondência protocolar assinada por uma
médica, o colega viu-se impedido de prestar
assistência oftalmológica a uma clientela formada ao
longo de 31 anos de bons serviços. E a carta,
arrematando com uma ironia, diz contar com a
colaboração e a compreensão do descredenciado!
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É com
tristeza que registro o fato: um colega é descartado sem
mais nem menos, sem um gesto sequer da empresa que pudesse
caracterizar um mínimo de respeito e consideração já não
digo ao médico, mas ao cidadão que a serviu com exemplar
lisura e eficiência por tanto tempo. Tudo isso é muito
ruim e profundamente melancólico, pois nos lembra uma
verdade sabida e consabida: o absoluto desprestígio do
médico. A dispensa, assinada por uma médica, é
feita seca e sumariamente e, com certeza, já deve haver
outros se oferecendo para ocupar a vaga do colega
demitido.
Para
começar, uma pergunta: a obrigação com o vínculo funcional
justifica a participação da signatária e a deixa fora do
alcance de um processo ético? Fico imaginando a que ponto
chegou o nosso desprestígio: essas empresas de saúde, além
de aviltarem continuamente o honorário médico, sentem-se à
vontade e suficientemente fortes para nos tratar com total
descaso, certas de que nada e ninguém vai preocupar-se com
a insolência de suas decisões. Quer dizer, o médico está
só, franciscanamente só. Diante de um fato como este, que
sinaliza uma realidade nacional, é preciso que nossas
sociedades e instituições médicas, os nossos órgãos de
classe se empenhem mais do que já o fazem para farejar
esse desrespeito, essa agressão, essa violência e, de
pronto, levar a solidariedade da categoria ao colega.
Concordo que são muitas as atribuições das nossas
sociedades e concordo também que elas fazem bem a
esmagadora maioria delas. Mas, nós precisamos que elas se
envolvam mais de perto com problemas dessa natureza, é
importante que elas tomem as dores do colega, é
indispensável que essas organizações que nos molestam
saibam que nenhum médico está só, que nenhum de nós é uma
ilha, mas que podemos contar com o apoio real, efetivo das
nossas instituições. É preciso que essas empresas tenham a
noção exata e real desse apoio, é indispensável que elas
saibam que nunca estarão levando o desassossego e
desrespeito a um médico apenas, mas a toda a categoria.
Agora,
mais importante que tentar remediar, é atuar
preventivamente, retirando esse apoio do papel, fazendo
com que ele vá além de resoluções bem intencionadas e se
materialize na presença ostensiva das sociedades junto às
operadoras de convênios. Com isso elas, por certo,
sentir-se-ão vigiadas e intimidadas e terão de pensar duas
vezes antes de repetir a agressão a outros colegas. Todos
sabemos, claro, das muitas resoluções institucionais de
apoio e proteção ao trabalho e à dignidade do médico. A
resolução 1616/2001 do CFM é um belo exemplo. O seu art.
1° veda o desligamento do médico vinculado por (...)
credenciamento (...) à Operadora do Plano de Saúde, exceto
por decisão motivada e justa, garantindo-se ao médico o
direito de defesa e do contraditório no âmbito da
operadora. Mas as operadoras não dão a mínima para
essas resoluções, que só terão eficácia se vierem com a
chancela do legislativo, sob a forma de lei federal. É
necessário, pois, um permanente trabalho junto aos nossos
Congressistas para que as sábias e oportunas decisões dos
nossos Conselhos, como a 1616/2001 do CFM, possam
transformar-se em instrumento efetivo e ágil de proteção
ao médico.
Não estou
advogando o apoio automático, emocional, gratuito. Não; o
que defendo é a necessidade de que se cumpra um rito
processual isento, ouvindo-se as razões do médico,
respeitando-se e preservando-se seus direitos, para que a
dispensa, se for inevitável, se faça sob a égide da
justiça, sem constrangimentos e com um mínimo de atenção
ao colega. É pedir muito? E não é exatamente esse o
espírito da resolução 1616 do CFM? Não é a primeira vez (e
nem será a última) que casos semelhantes ocorrem e é
possível mesmo que tais fatos venham acontecendo sem o
conhecimento institucional.
O colega
deve, por sua vez, lembrar-se de procurar as entidades
organizadas e apelar para que elas atuem solidariamente
com ele. Mas ainda acredito (e volto a insistir nisso) que
cabe as nossas sociedades anteciparem-se preventivamente a
essas ocorrências. Assim, o médico sentir-se-á amparado
por elas e as operadoras desencorajadas da prática dessa e
de outras medidas abusivas. Os tempos estão difíceis, sem
dúvidas. E é exatamente por isso que nós médicos, mais que
nunca, precisamos da integral solidariedade das nossas
instituições. Pode até nem resolver, concordo, mas que
conforta e alegra, ah, não tenho nenhuma dúvida.
Elisabeto Ribeiro
Gonçalves
Vice-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
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Jornal Oftalmológico Jota Zero nº 89
Março / Abril de 2003
com circulação em Maio de 2003.
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