JOTA ZERO: E como foi a trajetória do consultório de seu pai até o Hospital de Olhos do Paraná? MOREIRA: Minha intenção sempre foi montar um serviço padrão de oftalmologia. Nos locais onde trabalhava enfrentava grande dificuldade, que aliás, era a de todos os oftalmologistas do Brasil da época: os hospitais gerais não tinham condições adequadas para a realização de cirurgias oftalmológicas. Acabava uma cirurgia infectada, de problemas proctológicos por exemplo, e logo em seguida entrávamos com uma cirurgia de catarata. Além disso, por volta de meados da década de 60, a Oftalmologia começou a avançar rapidamente e os instrumentos começaram a ficar cada vez mais sofisticados, caros e exclusivos. Os problemas eram quase inevitáveis. No Hospital Evangélico, onde eu tinha excelentes condições e não quero criticar de forma alguma, em certa ocasião vi um paletó pendurado no aparelho de xenônio para fotocoagulação, um aparelho delicadíssimo e difícil de ser ajustado. O microscópio cirúrgico (fui pioneiro na utilização do microscópio cirúrgico para oftalmologia no Paraná) ficava próximo às salas de cirurgia e era transportado, às pressas, sem cuidado, por um chão irregular, até a sala que seria utilizada. Eram aparelhos que eu havia comprado e que disponibilizava ao hospital e que estavam sendo destruídos. Todas as tentativas de criar uma ala exclusiva para a oftalmologia fracassaram. Então decidi criar meu próprio hospital. Encontrei um imóvel adequado, numa região central de Curitiba, uma casa velha de dois andares onde funcionava um armazém de secos e molhados com a residência da família no andar de cima. Comprei o imóvel, remodelei e este foi o embrião do hospital.  Fachada do prédio do Hospital de olhos do Paraná | O empreendimento foi crescendo nos últimos 30 anos e hoje reune toda a família Moreira outros profissionais de primeira linha. Temos um edifício de seis mil metros quadrados, dois andares de garagem, áreas esplêndidas, todos os aparelhos mais modernos da oftalmologia à disposição dos pacientes do SUS, convênios e particulares sem distinção. Fazemos tudo em oftalmologia e temos, inclusive, um laboratório específico para a colheita de material de córnea. O Hospital tem mais três imóveis, dois deles localizados nas proximidades e o outro no populoso bairro do Boqueirão. Ao todo, são 92 pessoas que trabalham na instituição, das quais aproximadamente 30 são médicos. Em nosso centro cirúrgico realizamos entre 30 e 35 cirurgias por dia. |
JOTA ZERO: Como foi o processo de criação das residências de oftalmologia? MOREIRA: A primeira residência em oftalmologia surgiu na Universidade Evangélica. Fiz a mesma proposta na Universidade Federal do Paraná, mas lá os problemas foram imensos já que o estabelecimento de uma residência sempre cria despesas, modifica o tipo de atendimento, entre outros fatores. Na Evangélica a experiência deu certo e logo foi imitada por todas as outras especialidades médicas, começando pela pediatria. Depois disso criei a residência da Federal e depois no Hospital de Olhos do Paraná. JOTA ZERO: E seus filhos? MOREIRA: Tenho a satisfação de ver o Júnior como Reitor da Universidade Federal do Paraná, uma das mais importantes do Brasil. São mais de 37 mil pessoas sobre sua orientação, um orçamento grande e ele dando a fidelidade aos princípios éticos e de interesses científicos e sociais da universidade, sem nenhum temor. Já entrou em batalhas duras e venceu. O Hamilton também é professor universitário, com um conhecimento científico enorme e uma capacidade prática fora do comum. A Luciane também está muito bem encaminhada na profissão. Acho que fazendo uma retrospectiva do passado, só tenho a agradecer à vida por tudo que me deu condições de conquistar, mas o fato de ter a família que tenho é um verdadeiro privilégio, não existe outra palavra para descrever. |
Uma faceta pouco conhecida de Carlos Augusto Moreira é que ele também escreve (ou “comete”, como diz) poesias, em estilo pessoal e geralmente com fundo moral. Abaixo, três exemplos de sua obra neste campo. O Espelho e a Janela Antipodas criaturas com caminhos opostos, O espelho olha para trás, onde podemos nos ver. Vemos o interior de nossas casas, de nossas vidas. Vemos o que fizemos e nossas figuras: Retas, corretas ou distorcidas Por uma personalidade que deforma Para pior ou quase sempre melhor. Visão de criaturas fortes, bonitas E vencedoras dentro da irrealidade criada. Vemos como figuras esmaecidas Nossas derrotas e nossos erros. As vitórias são brilhantes, ofuscando A rotina que nos consumiu o tempo. A janela sim, olha para fora, Para o futuro. Deixa entrar luz e as imagens da verdade. Podemos ver figuras e exemplos A serem seguidos e perseguidos com obstinação Somente os bons; Evitar de ver os maus, Por mais fascinantes que pareçam. A janela e o espelho Eles existem e estão conosco Sempre disponíveis para nos orientar. Infelizmente há muros fechados, Interiores escuros, sem janelas e sem espelhos A aprisionar vidas que se consomem sem perceber. Carlos Augusto Moreira Janeiro/2002
Lideranças Um dia procurei um líder. Um líder verdadeiro. Procurei na história, revistas em quadrinhos; Representados em estátuas os encontrei em praças. Quase todos montados em cavalos, Armados e ameaçadores. Não era este o meu sonho. Para que armas? Não bastam razoes? O cavalo servindo de escada, Aumentando sua figura e seu valor. “Um dia eu me montei”. Na música. Contra quem? Não foi a favor de alguém. Busquei na história e os encontrei em batalhas. Batalhas com mais derrotados do que vencedores. Pirâmides de pedras! Artificiais monumentos. Pirâmides de crânios! Sacrifício de humildes. Desesperado continuei a busca. Na Índia parece que encontrei um deles, Desarmado; com um punhado de sal na mão; Na outra só um montão de razoes. Idéias imbatíveis com armas. Outro encontrei montado em um burrico Entrando em Jerusalém. Parece sem jeito assim representado. Sua grandeza ficaria melhor Com o burrico completando a multidão. Mas suas vitórias são eternas. Eles sempre foram a favor. Negaram a filosofia do não. Carlos Augusto Moreira Julho/2002
Para o Dudu, meu neto Um dia, passeando pela mata Em silêncio e harmonia com a natureza, Ouvi ou senti uma conversa. Lá no alto dos galhos, quase no céu Estava soberba ave de rica plumagem. Falava com um tatu, cá em baixo, Confundido em tons como a terra que habita. Ei, tu ai o que fazes? Moro dentro da terra, vivo da terra. E tu como vives? Nas alturas, livre para voar. O ar é meu mundo. Tatu! Como podes viver em tais condições, Sujo, preso nesta insignificância? Amiga ave, estas ofuscada pelo esplendor; Muita luz em teu mundo impede de ver Como a energia e a sustentação das arvores Nascem aqui em baixo. Sem meu mundo não existirias! Mas sem o meu ar também tu acabarias morrendo. As grandes arvores a que tudo assistiam Quietas e conscientes sabiam da importância. Suas raízes fincadas na terra. Asseguravam sua firmeza e sua seiva; O ar verdejava suas folhas e sua vida. Neste mundo tudo esta interligado Cada um com sua importância. Carlos Augusto Moreira |
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