Somar é preciso, dividir não é preciso
Não acuso. Nem perdôo. Nada sei. De nada. Contemplo.
(Contemplação, Cecília Meireles)

Um dos aspectos mais curiosos e intrigantes do médico é a sua capacidade de dissentir. Dissentimos por tudo, discutimos sempre, raramente concordamos. E como explicar a vocação médica para o desentendimento? Não sei e sei que na maciça maioria das vezes não há nenhum forte motivo para divergências. Todos nós temos nossos projetos, individualidades e idiossincrasias, e nem sempre a contrapartida do outro se amolda exatamente ao nosso figurino.

Descontados essas causas naturais que podem explicar opiniões diferentes e posições conflitantes, nada sobra para justificar tantas divergências e amuos entre médicos O que está, então, por trás desses conflitos? No duro, no duro, vaidades pessoais. E o pior é que essa vaidade também dá o ar de sua graça no relacionamento dos dirigentes das sociedades de classe. Ora, enquanto desavenças ocorrem no entrosamento pessoal ou empresarial, vá lá, não deveriam ocorrer com tanta freqüência, mas, pelo menos, não comprometem, em princípio, os interesses da categoria. Uma coisa é o médico, no seu consultório, no seu hospital e outra, bem diferente, deve ser esse mesmo profissional ocupando posições diretivas nas entidades médicas. O primeiro tem total e absoluta liberdade de gerir seus negócios como bem lhe aprouver; mas o segundo deve, necessariamente, condicionar sua liberdade de agir aos interesses da categoria.

Por que essas considerações? Nos próximos dias teremos eleições para renovação das diretorias dos Conselhos Regionais de Medicina em todo o país. E o que vemos? Divisão, divisão e divisão. Há Estado, segundo sei, com oito chapas disputando o voto do colega! Será que os interesses dos médicos são tantos e tão diversos a ponto de só estarem suficientemente representados nesse excessivo número de candidaturas? Não é bem assim. Lendo os prospectos informativos desses vários grupos, vemos que os interesses da categoria vão muito pouco além de uma dezena, que cada um desses comunicados praticamente copia as reivindicações dos outros e que a promessa de todos os concorrentes é uma só: lutar para defender e promover o colega. Também são semelhantes as estratégias de ação propostas pelas diversas facções. Ora, se não é tão grande a relação de interesses, se todos os grupos em disputa os reconhecem como legítimos e estão dispostos a pugnar por eles de maneira idêntica, por que essa dissensão? Quem lucra com ela? A quem ela beneficia? Nenhum lucro, nenhum benefício tem, com certeza, o médico.

O importante não é a vaidade dos nossos líderes ou o prestígio que essas posições de mando possam lhes dar: importante mesmo é a disposição de servir o médico. O prestígio do dirigente não deriva da cadeira onde se senta nem da posição conquistada, mas do apoio e da confiança que o colega lhe outorgou. São os dois – o apoio e a confiança do colega - que dão prestígio às nossas lideranças e as engrandecem. Esses, sim, devem envaidecê-las e, ao mesmo tempo, legar-lhes a humilde aceitação que são apenas instrumentos, delegados e procuradores do colega. Engana-se o líder que se enche de si mesmo e se esquece que o seu prestígio é do colega e não dele e que o colega apenas o cedeu para um fim específico, esperando que ele seja usado com inteligência e generosidade.

E o pior é que essas desarmonias começam nas campanhas eleitorais e se prolongam durante todo o exercício do mandato. O cotidiano é palco de um lamentável confronto de egos, cada um mais amazônico que o outro. E será que essas querelas intestinas não roubam, de cada um dos envolvidos, o tempo, a energia e a atenção que deveriam ser canalizados ao estudo e a busca de soluções para os graves problemas que atormentam a nós, médicos? Por que não procurar criar um clima de fraterna serenidade para que nele possa vicejar o ambiente de colaboração e entendimento que facilitarão, sem dúvidas, o estabelecimento de estratégias em favor da superação das nossas dificuldades? As entidades médicas, geridas por um punhado de ilustres colegas, não podem dar-se ao luxo de gastar seu tempo administrando quizilas domésticas. Enquanto isso acontece, lá fora se consolida o desencanto e ganha força a noção de que nós, médicos, somos órfãos de sociedades vivas.

Elisabeto Ribeiro Gonçalves
Vice-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia


Academia Americana alerta MEC contra optometria


Dunbar Hoskins Junior e Zélia Corrêa

“O estabelecimento de um novo grupo de profissionais licenciados para prestação de cuidados com a visão levará a três catástrofes que prejudicarão os altos padrões do sistema médico brasileiro, conforme comprovado pela “invasão” optometria nos EUA: 1) A política local em detrimento de critérios clínicos é que determinará as licenças cirúrgicas; 2) Os padrões dos estágios para a formação médica/cirúrgica serão comprometidos; 3) Os pacientes serão forçados a aceitar os cuidados cirúrgicos de profissionais não-cirurgiões.”

Estas foram algumas considerações presentes no documento que Dunbar Hoskins Junior, vice-presidente executivo da Academia Americana de Oftalmologia enviou ao Ministro da Educação, Cristovam Buarque, em 27 de maio. O documento relata alguns problemas enfrentados nos Estados Unidos provocados pelo avanço dos optometristas nas atividades médicas e alerta a autoridade para que o Brasil não siga pelo mesmo caminho.

Hoskins Junior enviou este documento em atendimento à solicitação feita pelo presidente do CBO, Suel Abujamra e às gestões feitas pela médica oftalmologista Zélia Corrêa e foi indexado na documentação que o Ministério da Educação está compilando para estudar o caso do curso de optometria da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), do Rio Grande do Sul, que já formou suas primeiras turmas e ainda não obteve reconhecimento no Ministério. A íntegra da carta enviada por Hoskins Junior ao Ministro Buarque é a seguinte:

Prezado Prof. Buarque,

A intenção da presente comunicação é informar sobre os eventos ocorridos nos Estados Unidos, relacionados com a evolução da Optometria como uma profissão da saúde de licenciamento autônomo. Especificamente, a Optometria tem existido dentro de seu estatuto original, “o exame e a refração do olho humano?” A resposta é NÃO.

O estabelecimento de um novo grupo de profissionais licenciados para prestação de cuidados com a visão levará a três catástrofes que prejudicarão os altos padrões do sistema médico brasileiro, conforme comprovado pela “invasão” optometria nos EUA.

1. A política local em detrimento de critérios clínicos é que determinará as licenças cirúrgicas;
2. Os padrões dos estágios para a formação médica/cirúrgica serão comprometidos;
3. Os pacientes serão forçados a aceitar os cuidados cirúrgicos de profissionais não-cirurgiões.

No início do século XX, os médicos em geral e a oftalmologia, a primeira especialidade a dispor de conselho médico/cirúrgico especializado relegou o componente refração do exame ocular. Os oculistas foram considerados vendedores, não profissionais da saúde e a optometria surgiu para preencher a lacuna. Antes do fim do século, essa licença foi expandida por lei para quase todos os estados para a obtenção de licenças que extrapolavam as capacidades de instrução e treinamento. Essa escalada era sistemática, seqüencial e sustentada, contornando a formação médica universitária com “políticas locais” eficazes.

Anos 50 - fármacos tópicos para dilatação do olho;
Anos 70 - fármacos tópicos para tratar problemas comuns (alergia, infecção);
Anos 90 - fármacos tópicos para tratar doença ocular avançada (esteróides, antivirais);
Anos 90 - Medicamentos orais incluíam substâncias controladas;
2000 - Procedimentos cirúrgicos com uso de medicamentos injetáveis (três estados);
2000 - Cirurgia a laser (um estado).

Durante esse período, as escolas de optometria proliferaram sem regulamentação devido a considerações federais ou estaduais sobre mão-de-obra médica e, frequentemente, em estados onde a limitação farmacêutica impedia uma educação significativa. Nenhum programa de treinamento em optometria foi credenciado pela ACGME, o órgão de fiscalização nacional, responsável pelas exigências curriculares e pelos critérios de tratamento de pacientes na pós-graduação médica.

Tendo implantado legislação para licença e prerrogativa além do status educacional da profissão, a optometria agora busca o aprimoramento educacional para promover uma imagem profissional análoga - sem se submeter ao prazo rigoroso e ao devido treinamento de residência em oftalmologia realizado em hospital. Observe as seguintes concessões relativas ao período de experiência na educação médica.

• Alegação de treinamento cirúrgico nos fins de semana, ciclos em hotéis “resort”;
• Estabelecimento de centros cirúrgicos dentro de faculdades de optometria (Nova Iorque);
• Busca de licença para cirurgia de pálpebras e laser em várias instituições de Administração Oficiais da Reserva (Califórnia, Alabama, Kansas);
• Substituição de Conselhos Médicos Estaduais sob a alegação de autoridade do órgão de optometria independente para cirurgia;
• Formalização do co-tratamento de paciente com catarata para reivindicar experiência cirúrgica;
• Incentivo dos Departamentos Acadêmicos de Oftalmologia para desviar recursos do curso de residência médica/cirúrgica para a formação optométrica.

A resposta é NÃO. A Optometria não conservará suas atribuições originais - exame, diagnóstico e refração. Nos EUA a profissão optométrica deixou clara a intenção de obter licenças equivalentes a de efetuar tratamentos médicos e cirúrgicos sem participar do sistema de formação médica padrão estudante/residente. Não é de se esperar um comportamento diferente no Brasil. Não é coincidência que a Europa esteja passando pelo mesmo surto de evolução optométrica - expansão sistemática, seqüencial, em cada país, de licenças para diagnóstico e tratamento.

Se as políticas locais prevalecerem no Rio Grande do Sul e os critérios de formação médica abaixo do padrão forem aceitos para conferir licenciamento e prerrogativas, a optometria dará início à inevitável tentativa de equiparação à oftalmologia, a profissão cirúrgica reconhecida. E quem pagará o preço? Certamente o público, e o preço será alto. Os recursos são escassos e o di-nheiro do contribuinte não deveria ser desperdiçado com uma réplica do sistema de tratamento da visão, porém de segundo escalão. O que é ainda mais grave é que o público se confrontará sem desejar, e muitas vezes sem saber, com cirurgias praticadas por não-cirurgiões. Esse é o grande perigo e o grande desafio do Ministro da Educação.

Cordialmente
H. Dunbar Hoskins Junior - Médico
Vice-presidente executivo
CC para Dr. Suel Abujamra,
presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
(leia mais sobre o curso da ULBRA nas páginas 30 e 31)
 

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